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quarta-feira, 2 de novembro de 2016

O Período Muçulmano na Península Ibérica


Em fins de abril de 711, os exércitos islâmicos de Tariq Ibn Musa, em grande parte da etnia berbere, saíram do norte da África, atravessaram o Estreito de Gibraltar, e invadiram a Espanha. Em 19 de julho deste mesmo ano, durante uma batalha, foi morto o último rei visigodo, Dom Rodrigo. Pouco depois, Córdoba foi sitiada e tomada. Uma parte dos judeus exilados voltou à sua terra natal e não foram hostilizados pelos muçulmanos. Estes estavam preocupados em perseguir as tropas visigodas no norte do país. Os judeus, após alguns séculos de opressão visigótica, acolheram os invasores com muita esperança de melhores dias. Chegaram mesmo a colaborar com os invasores, usando de estratagemas para a entrada dos exércitos muçulmanos nas cidades. Os judeus foram bem acolhidos e a eles foram atribuídas responsabilidades antes inimagináveis, como a administração de algumas cidades conquistadas, como Toledo e Sevilha. Eles agiam como uma ponte entre os cristãos e os muçulmanos, agiam como colonizadores, e acabaram tendo a confiança dos dirigentes árabes (Faiguenboim e cols., 2004).

A expansão da dinastia omíada para o oeste e invasão da Península Ibérica.


No começo, judeus, cristãos e muçulmanos conviveram em paz. Os muçulmanos contaram com a colaboração dos judeus em áreas como a administração e comércio, o que fortaleceu comunidades judaicas. Esse ambiente de tolerância possibilitou o florescimento cultural, científico e econômico de ambas culturas. O hebraico foi reabilitado como língua literária e diversas academias e sinagogas foram fundadas em Córdoba e Lucena. Foi o período da dinastia muçulmana dos omíadas.

Os omíadas compunham uma dinastia de califas muçulmanos do clã dos Coreichitas, que subiu ao poder em Damasco no período de 661 a 750. Entre 717 e 724, eles viveram seu período de apogeu, quando foram derrotados pela dinastia dos abássidas. O sucessor, Abdelhaman, foge para a África do norte e, em seguida, para a Espanha, aí dando continuidade a essa que foi a mais fecunda administração muçulmana na Europa. Transformou a região em Emirado e estabeleceu Córdoba como sua capital, em 756.

A expansão omíada.





Os judeus eram muito melhor tratados pelos muçulmanos (mouros) do que pelos cristãos, que eram especialmente cruéis com eles. Mas, ainda não era a situação ideal para os hebreus. Os mouros impuseram aos dhimi (minorias cristãs e judaicas que viviam no mundo islâmico) o pagamento de pesados tributos pelo simples fato de serem tolerados em suas cidades. Os judeus e cristãos foram tolerados em suas crenças e atos religiosos e prosperaram economicamente. O califa Omar (634-644) estabeleceu o que foi chamado de Pacto de Omar (Shurut), que foi uma legislação reguladora de normas para a permanência dos povos do Livro (cristãos e judeus) em zonas islâmicas.

Grande mesquita de Córdoba, cuja construção foi iniciada por Abdelhaman.

A dinastia omíada abriu uma nova época para os judeus, governada pelo emir Abdelhaman, a partir de Córdoba. Esse período durou 250 anos. Apesar das lutas internas pelo poder, entre os muçulmanos, a situação dos judeus permaneceu mais que satisfatória. Nesse período, houve judeus que se destacaram, como o médico e diplomata Rabi Hasdai Ibn Chaprut. Foi o apogeu do período muçulmano na Península Ibérica. Os sábios e eruditos muçulmanos preservavam e difundiam a cultura, a filosofia, a filologia, a mística, as artes e as ciências, como nunca se vira antes. Obras greco-latinas que, se não tivessem sido traduzidas do grego e do latim para o árabe, e, posteriormente, novamente para o latim, jamais teriam chegado aos nossos dias. Esta foi a Idade de Ouro dos judeus na região. A cultura judaica se beneficiou muito desta atmosfera de tolerância e o intercâmbio entre sua cultura e a muçulmana foi sempre estimulado pela corte (Amador de los Rios, 1876; Faiguenboim e cols., 2004).

As taifas em 1037 d.C.


Em 1031, o califado de Córdoba, um verdadeiro Império Omíada, o mais importante estado muçulmano no Ocidente, foi fragmentado em províncias administrativas ou reinos independentes, chamados de “taifas”, governados pelos “reyes de província”, o que possibilitou o incremento da cultura e importância das comunidades judaicas, e algumas chegaram mesmo a um certo esplendor. Destacaram-se as comunidades judaicas de Granada e Saragoça, onde judeus ocupavam os mais importantes cargos da corte e exerciam o mecenato, incentivando as artes e o saber. Os judeus de talento tiveram grandes oportunidades nesse período e o mais importante deles foi Samuel Ibn Nagrila (Shmuel Há-Naguid). Ele foi vizir, príncipe, líder comunitário, rabino e general do exército de Granada (rei Badis). Foi também um poeta erudito e talentoso. Havia um clima de florescimento da cultura árabe que suplantava a latina. Os cristãos vestiam-se com roupas árabes, os costumes e liturgia religiosa eram muçulmanos. Se, na Antiguidade, os sábios provinham da Babilônia, no período omíada eram provenientes da Península Ibérica. O clima era de sabedoria e conhecimento (Faiguenboim e cols., 2004).

Sinagoga de Santa Maria la Blanca, em Toledo. Influência da arte islâmica.



Mas, nem tudo era paz. Havia também muita corrupção, e dificuldades econômicas vieram no seu rastro, o que levou os judeus a abandonar as cidades do centro e do sul da Península. A instabilidade do estado muçulmano levou os judeus a migrar para o norte, para as cidades cristãs, onde havia a promessa de uma vida melhor. A grande virada na sorte dos judeus ibéricos se deu em 1066, quando uma revolta depôs e assassinou o sucessor de Samuel Ibn Nagrila, seu filho Yossef. Logo, os judeus perceberam que seu período de paz com os muçulmanos chegara ao fim.

A influência islâmica nas sinagogas. Extraído de Faiguenboin e cols., 2004.

Durante certo período da invasão muçulmana na Península Ibérica (do século XI ao século XV, os omíadas foram substituídos por três dinastias mouras que governaram a região, denominada de Al-Andaluz: os almorávidas (1090-1147), os almóadas (1147-1232) e os nazarís (1232-1492).
As taifas, em 1080.


Ao mesmo tempo, Castela, o mais poderoso dos reinos cristãos, preparava-se para atacar os mouros ao sul. Em 1086, o rei Alfonso VI conquistou a cidade de Toledo, após uma sangrenta batalha. Começava o que foi consagrado pela História como o período da Reconquista

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