quarta-feira, 3 de abril de 2013

Um herói da Ibéria



D. Paio Peres Correia (Pelayo Perez Correa) (1205-1276).


Desde que iniciamos a construção deste blog não é nosso objetivo glorificar nossos antepassados, criar um clima fantasioso de pertencer a famílias de sangue azul, de grandes heróis ou salvadores da pátria. Muito pelo contrário, nosso objetivo é mostrar nossas origens, em suas diversas vertentes de linhagens e de famílias, revelando seus aspectos positivos e também os negativos. Já escrevemos muito sobre as vicissitudes, se é que se pode chamar assim à verdadeira tragédia que a história da Humanidade reservou ao povo judeu, em particular ao judeu sefardita, que está na origem de grande parte de nossos antepassados. É importante também que se revelem os grandes feitos de nossos ancestrais, sem que, com isso, estejamos a fazer uma exaltação de nossa linhagem familiar, sua apologia ou seu endeusamento. É necessário relacionar todos os fatos realmente ocorridos porque eles pertencem à História. E a História não pode ser apagada, não pode ser reescrita. Mais, deve ser conhecida por todos, para que os atos do bem possam ser imitados pelas novas gerações e para que os atos do mal sejam corrigidos e nunca mais repetidos.

Na postagem anterior, descrevemos as origens históricas da família Corrêa (ou Correia, em sua grafia portuguesa), que teve origem no período visigótico da Península Ibérica, muito antes da existência do reino de Portugal. É importante que se ressalte que encontramos famílias Corrêa (Correia) em todo o planeta, desde os tempos das grandes navegações, quando membros da mesma se dispersaram por todo o mundo, numa verdadeira diáspora particular. Nas Américas, por exemplo, encontramos Corrêa (Correia) desde o Alasca até a Patagônia, numa demonstração do que acabamos de descrever. Encontramos esta família espalhada pela Europa, Ásia, Oceania, Austrália e África. Portanto, não é de forma alguma um panegírico o que descrevemos. Motivo de orgulho, sim, um orgulho genuíno para milhares de pessoas que podem exibir em seu histórico familiar eventos de tais proporções.

Vamos aqui tecer algumas considerações sobre um membro desta família Corrêa (Correia) que viveu na Ibéria, no século XIII. Trata-se de Paio Pires (Peres) Corrêa. É um herói tanto para portugueses quanto para espanhóis. Na Espanha é conhecido como Pelayo Pérez Correa, onde é considerado um herói da Reconquista.

Na postagem anterior, já o havíamos citado como pertencente à sétima geração da família descendente de dois troncos. De um lado, os primeiros, identificados através de registros nos arquivos da Torre do Tombo, em Lisboa, estão Pedro Afonso Dorraes e Gotinha Oeris, de origem leonesa, do século X. De outro lado, descende D. Paio de Mendo Gomes e D. Eufrásia, irmã do arcebispo de Toledo, e descendente o rei visigodo Chindasvisto (563-643). Estes últimos eram de famílias moçárabes, isto é, cristãos que, durante a invasão e todo o período em que estiveram sob o jugo muçulmano na Península Ibérica, mantiveram sua fé cristã, mas assimilando a cultura, a língua e costumes dos árabes. Aos mais interessados, indicamos, na Bibliografia, os artigos do prof. Miguel-Ángel Ladero Quesada, da Universidade Complutense de Madri, que discorreu, de forma magnífica sobre a biografia de D. Paio.




Chindasvinto - Arquivos de la Biblioteca 
Nacional de España (642-649).

D. Paio Pires Corrêa nasceu no norte de Portugal, em 1205, numa pequena freguesia chamada Fralães, ou Monte de Fralães, pertencente ao concelho de Barcelos e subordinada clericalmente ao arcebispado de Braga. Esta região ao norte de Portugal, antigamente, fazia parte do reino de Leão, Castela e Galiza, com o nome de Condado Portucalense, até que D. Afonso Henriques, após sucessivas batalhas, das quais saiu vencedor, tornou o Condado independente e criou o reino de Portugal, em 1139.




Monte de Fralães, Portugal.

      D. Paio era filho de Pero Pais Corrêa e teve vários irmãos que viveram nas freguesias vizinhas, bem como diversos outros parentes. Ainda encontramos em Fralães o Solar dos Correias, casa onde ele nasceu.

Em Portugal o nome freguesia é dado à menor divisão administrativa de uma região. Corresponde à paróquia civil, como a conhecemos em outros países, inclusive o Brasil. Trata-se de uma subdivisão dos concelhos (com c) e são obrigatórias, levando-se em conta que todos os concelhos têm, pelo menos, uma freguesia. Em 2001, o pequeno território de Fralães tinha 270 habitantes, para uma área de 1,80 km2. Sua densidade populacional era, em 2001, de 150,0 habitantes/km2.




Concelho de Barcelos - Monte de Fralães - 
localização no mapa de Portugal. 

 O lugarejo tem origens muito antigas. No Monte d’Assaia, bem no local, havia uma cidade-citânia, provavelmente de origens pré-romanas. No século XI, a freguesia é referida com o nome de São Cristóvão de Silveiros, relacionada no Censual do Bispo d. Pedro (nome com que ficou conhecido na história o Liber Fidei Sanctae Bracarensis Ecclesiae e o censual Inter Lima et Ave, uma espécie de levantamento censitário do período, realizada pela diocese de Braga, uma das principais fontes de pesquisas históricas da região norte de Portugal, entre os rios Minho e Douro).  O nome de Braga na era romana era Braccara Augusta. Além desses documentos, outro conjunto importante, os Portugaliae Monumenta Historica são as principais referências para pesquisas históricas dessa região tão importante na história de Portugal e, particularmente, de nossos ancestrais.




Freguesias das proximidades de Fralães, na diocese de Braga.


Antes de se tornar Concelho de Fralães, o lugarejo era conhecido como Honra de Fralães, um termo medieval em que os moradores do local, muitos dos quais eram servos, estavam sujeitos aos débitos feudais e à vassalagem. Seu nome primitivo era São Pedro do Monte, freguesia sede da Honra de Farlães. Mais tarde, mudou o nome de Farlães para Fralães por questões fonéticas. De tão pequeno que era para ser um concelho (incluía os Concelhos de Monte de Farlães e Viatodos), e por haver inúmeros outros de mesmo nome no país, não comportava ser a sede de um concelho. Muito próximo havia sido criado o Concelho de Vila Nova de Famalicão. Pensou-se que originalmente o nome derivaria de Farelães, palavra derivada de farelo, mas esta hipótese já foi rejeitada, há muito, por falta de sustentação.




Monte de Fralães - pia batismal.



O Conde D. Pedro, com seu Livro de Linhagens – Nobiliarquia Portuguesa, escrito após a morte do rei D. Dinis, em 1325, já relatava a presença nos seus paços de uma pedra onde se lia: Elio Saia era 1004, uma pedra de pia batismal, com uma rosácea de seis folhas, que se acredita tenha pertencido à igreja medieval de Monte de Fralães. Nela, teria sido batizado D. Paio Pires Corrêa. A transformação do nome Honra de Fralães para Concelho de Fralães ocorreu em meados do século XIV e durou até o século XIX. Boa parte dos arquivos referentes a esses acontecimentos podem ser encontrados em Barcelos.




D. Dinis (1278-1325).



A família Corrêa residia numa grande casa que ficou conhecida como Solar de Fralães ou Solar dos Corrêas, dos séculos XII ao XVII. Neste solar tinha sede o Concelho de Fralães e, anteriormente, a Honra de Fralães. Em sua grande sala ocorriam as reuniões para a eleição dos edis, os chamados “justiça”, sob supervisão do donatário, que era o Senhor de Fralães. Possivelmente, na mesma sala ocorriam as reuniões camarárias (dos vereadores) e para tribunal. O terreiro era a Praça do Concelho.

Na quarta geração da linhagem que originou a família Corrêa, destacou-se Soeiro Pais Corrêa (1150-?), bisavô de D. Paio Pires Corrêa, que foi o primeiro senhor da Honra de Fralães (espécie de administrador local) e tronco da família, ao se casar com Urraca Oeris Guedeão (1070-?). Esta era descendente de D. Gueda Guedeão, o velho (1000-?), moçárabe, descendente, por sua vez, do rei Chindasvinto, o visigodo, como já revelado na postagem anterior. Os pais de D. Paio eram D. Pero Pais Corrêa e D. Dordia Pais de Aguiar.  A fusão dessas duas famílias, Corrêa e Aguiar, como já ocorrera antes com os Corrêa e os Guedeão, aumentou o prestígio de ambas, a ponto de seu brasão de armas ter sido modificado.




Monte de Fralães. Pedra onde se vê o primeiro brasão dos Corrêa.



Primeiro brasão dos Corrêa.




Brasão dos Corrêa, após casamentos com membros das famílias
Aguiar e Guedeão.



D. Paio Pires Corrêa faleceu em 1276 e sua vida foi repleta de episódios heroicos e granjeou fama e admiração por toda a península. Aos 20 anos, D. Paio já era membro da Cavalaria de Santiago, em Alcácer do Sal. Teve, posteriormente, uma ascensão rápida e brilhante dentro da ordem, em função das muitas vitórias obtidas sobre os mouros do Alentejo e Algarve.




Cavaleiro da Ordem de Santiago no período em que era 
comandada por D. Paio.


A Ordem Militar de Santiago foi uma ordem religioso-militar de Leão e Castela, criada por Alfonso VIII de Castela e aprovada pelo Papa Alexandre III, através de uma bula, em 5 de julho de 1175. Sua criação foi inspirada nas anteriores e bem sucedidas ordens dos Cavaleiros Hospitalários e Templários. Diferentemente, destas, entretanto, não se destinava à luta das Cruzadas, mas tão somente à defesa do território da Península Ibérica, na luta dos cristãos contra os mouros muçulmanos que a haviam invadido no ano 711. Tornou-se uma ordem supranacional, prestando obediência somente ao pontífice máximo. A primeira cidade a ficar sob sua guarda foi Cáceres, na Extremadura, concessão de Fernando II de Leão, sobrinho-neto de Alfonso VIII.

O bispo de Málaca, D. João Ribeiro Gaio, um vilacondense, referiu-se, no século XVI, a este local, cujo significado veremos um pouco adiante:

Farelães é o solar
Que aos Corrêas deu o ser
E D. Paio veio a ter
O qual fez o Sol parar
Para os Mouros vencer.


Os Cavaleiros de Santiago eram chamados de Santiaguistas ou Espatários, já que seu símbolo era uma espada em forma de cruz (ou uma cruz em forma de espada), faziam votos de pobreza e de obediência. Não faziam votos de castidade, pois seguiam a regra de Santo Agostinho e não a de Cister. A Ordem de Cister, também conhecida como ordem cisterciense, é uma ordem católica reformada. Seus membros podiam contrair matrimônio, sendo até mesmo alguns de seus fundadores homens casados. Entretanto, a bula papal recomendava o celibato e os estatutos da ordem seguiam um princípio das cartas paulinas: "Em castidade conjugal, vivendo sem pecado, assemelham-se aos primeiros padres apostólicos, porque é melhor casar do que viver consumindo-se pelas paixões".

Participando da luta em Portugal, sob os reinados de D. Sancho II e D. Afonso III, à frente de suas tropas começa a empurrar os mouros para o sul. Após dez anos na Ordem de Santiago, foram confiadas grandes missões a D. Paio. Em 1241 ele já está em Castela. Em 1242 torna-se Mestre de Uclés e encontra-se sob o comando do Grão-Mestre Rodrigo de Iñiguez.




A Reconquista, em diferentes épocas.


Já em território castelhano, no final deste mesmo ano, ele assume o mais alto posto da ordem, o de Grão-Mestre, em Mérida, servindo ao rei D. Fernando III, o que o torna um dos homens mais importantes da Península, em contato direto com reis e príncipes. Estava então com 37 anos.

O príncipe e infante Afonso de Castela (futuro Afonso X, o sábio), tinha 21 anos, tornou-se seu grande amigo a tal ponto que em 5 de setembro de 1243, o príncipe, ainda solteiro, prometeu confiar-lhe a criação de seu primeiro filho (que ainda não havia nascido). A partir daí, D. Paio esteve sempre ao seu lado em todas as campanhas da guerra.

Afonso X, o Sábio ou o Astrólogo (Toledo, 23 de novembro de 1221 – Sevilha, 4 de abril de 1284), foi rei de Castela e Leão de 1252 a 1284, e ainda imperador eleito do trono do Sacro Império Romano-Germânico (1257-1273), ainda que nunca tenha exercido o cargo de fato. Afonso era o primogênito de Fernando III de Castela e de Isabel de Hohenstaufen, pela ascendência da qual derivaram as suas aspirações ao trono imperial germânico. Isabel (ou Beatriz da Suábia, como ficou conhecida em Castela) era filha de Irene Angelina de Constantinopla e de Filipe, duque da Suábia, rei da Germânia e rei dos Romanos, neta do imperador germânico Frederico Barbaruiva. Foi um dos maiores reis da história da Espanha e tornou-se lendário ao compor uma série de poemas e músicas para a Virgem Maria que ficaram mundialmente conhecidas como as Cantigas de Santa Maria.




Alfonso X de Leão e Castela no
         Libro de retratos de los Reyes, 1594.


O grande historiador português José Mattoso assim se referiu a D. Paio:

Coberto de glória devido aos seus triunfos militares, foi depois solicitado para outras empresas guerreiras na Andaluzia. De facto, encontramo-lo desde 1243 junto do infante D. Afonso de Castela, o futuro rei Afonso X, o Sábio, que nesse ano comandou as tropas castelhanas que conquistaram Múrcia. Provavelmente também o acompanhou no ano seguinte, na conquista de Lorca e de Mula, povoações que pertenciam ao mesmo reino e não se entregaram juntamente com a capital. Encontramo-lo depois com o infante Afonso de Molina na conquista de Aljarafe, em 1245, nas conquistas contra o rei de Niebla, em 1247, e finalmente no cerco de Sevilha, onde desempenhou um papel do maior relevo, ao lado das tropas de Fernando III e de muitos portugueses (...).

Segundo o historiador e professor português José Ferreira (ver em: <http://paioperescorreia.blogspot.com.br/2009/09/ppc-18.html> ), a historiografia espanhola começa a apresentar D. Paio Pires Corrêa colocando-o ao lado de seu superior hierárquico, o Grão-Mestre Rodrigo Iñiguez, quando recebeu de Fernando III a vila e o castelo de Segura e os termos dos concelhos de Riopal, Alcaraz, Baeza e Úbeda, bem como de Jaén. Baseado no monastério de Segura, no topo de elevado monte, fez dela uma importante base militar, de onde partiu para a conquista da região de Murcia.

Num intervalo da guerra na Espanha, volta a Portugal e conduz a guerra na Serra da Segura, em Mula. Em seguida, conquista toda a região do Algarve, castelo por castelo.

Retorna a Castela, onde atinge o momento culminante de sua brilhante carreira militar. Em 1239 começou a investida contra o reino de Múrcia. Teve a colaboração preciosa de portugueses, incluindo seu irmão Gomes Pires Corrêa, ao lado de leoneses e castelhanos. Em 1241 Chinchilla foi conquistada, junto com inúmeros castelos. Múrcia caiu em mãos dos cristãos em 1243.




Principais batalhas da Reconquista.

Aqui transcrevo, do blog do citado prof. José Ferreira, um trecho da Crônica Geral de Espanha, de 1344, sobre estes feitos (aqui em português arcaico):
Depois que o iffante se partio de seu padre, foisse a Toledo. E, en se querendo partir dhi pera a frontarya, chegaron messegeiros de Abehudiel, rey de Murça, e hyam con embaixada a el rey dom Fernando, em que lhe mandava dizer que lhe darya o reyno de Murça con todas suas villas e castellos con certa preitesia. O iffante, quando vyo os messegeiros e vyo sua embaixada e a preitesya qual era non os leixou hir mais adeante. E outorgoulhes a preitesia en nome de el rey seu padre e fezeos logo tornar e foysse empos elles. E quando chegou en Alcara, tornaraõ aquelles messegeiros del rei Abehudiel a el con sua preitesya firmada por el e outorgada por todos seus sogeitos. E desi firmaron bem seu preito e foisse o iffante dom Affonso con elles e hya com elle o meestre dom Paae Correa e Ruy Gonçalvez Girom e outros muitos fidalgos. E os mouros entregaron o alcacer de Murça ao iffante com todallas outras fortellezas e couzas que lhe prometeron, segundo em suas preitesias era contehudo.

As conquistas se sucedem: em 1245 participou ao lado do infante Afonso de Molina, da tomada de Aljarafe. Em 1246 foi a vez de Jaén. A Crônica Geral de Espanha nos relata que o rei Fernando III solicita seus conselhos sobre como prosseguir a guerra.



Sevilha. Palco de um cerco, em 1249, que durou quase 100 dias,
comandado por D. Paio Pires Corrêa.

Após inúmeras vitórias no trajeto entre o Algarve e Sevilha, participa, ao lado do infante e futuro rei D. Alfonso X, do cerco e da tomada de Sevilha, por iniciativa de Fernando III. A partir de 1246, se iniciam os pre­parativos para o assalto a esta importante fortaleza moura. Foi uma das ações de maior envergadura de toda a Reconquista, cujo papel destacado pelo Grão-Mestre de Santiago foi relatado pela Crônica Geral de Espanha. Segundo diversos autores, o cerco durou em torno de 100 dias e foi a astúcia e inteligência de D. Paio que permitiu aos cristãos romper os muros da fortaleza de Sevilha. Todo o capítulo DCCCXXV da Crônica Geral de Espanha é dedicado a D. Paio, chamando-o de “Paae Correa”. Tem por título (em português arcaico, assim como o texto que se segue): “Como o meestre pousou da outra parte do ryo so Esnalfarag”. Citamo-lo na íntegra:


"Conta a estoria que dom Paae Correa, meestre da cavalaria de Santiago, com seus freires e outros segraaes que com elle acõpanhavõ que eram per todos duzentos e oiteemta cavaleiros, passou o ryo da outra parte e pousou so Esnalfarag, a grande perigo de sy e de suas gentes, ca mayor perigo era daquella parte que da outra de que pousava el rey, ca Abenafon, que a essa sazon era rei de Nevra, estava daquela parte e trabalhava quanto podya por os embargar. E estavam com elle todollos mouros dessa terra e eram tantos, antre os que hy estavam e os que lhe viinham em ajuda da parte do Exarafe, que era maravilha de veer. E por esta razon eram os cristãaos em grande afronta, ca nuca podyam folgar se nõ sempre estar com elles pelejando. E, pero que os cristãaos os vençiam e matavon deles muytos, os que ficavõ e os outros que creciam nunca os leixavã folgar.
        Veendo el rey Fernando o gram perigoo em que estava o meestre dom Paae Correa e todollos que com elle erã, mandou allo passar dom Rodrigo Frolles e Afonso Tellez e Fernand'Yvanes. E estes tres levaron cen cavaleiros com os quaes forom muy bõos ajudadores ao meestre e seus freires."

O rio em questão é o Guadalquivir, que separa Sevilha de Triana. Neste local encontramos a Calle Pelay Correa que eterniza a memória de seus feitos.



Sevilha e o rio Guadalquivir. Em frente, a Torre del Oro.

Estes episódios tornaram D. Paio Pires Corrêa uma lenda que, tempos depois, foi difundida pela literatura. Camões, em Os Lusíadas (Canto VIII, est. 26-27), dedicou-lhe uma estrofe e meia, que aqui reproduzimos:

Olha um Mestre que desce de Castela,
Português de nação, como conquista
A terra dos Algarves e já nela
Não acha quem por armas lhe resista.
Com manha, esforço e benina estrela,
Vilas, castelos toma, a escala vista.
Vês Tavila tomada aos moradores
Em vingança dos sete caçadores?

Vês, com bélica astúcia, ao Mouro ganha
Silves, que ele ganhou com força ingente?
É Dom Paio Correia, cuja manha
E grande esforço faz enveja à gente.

 Almeida Garrett baseou-se na conquista do Algarve para escrever D. Branca. Aqui duas estrofes da obra:

O arauto, com solene e grave passo,
A Dom Pato caminha e, volteando
Três vezes no ar o seu bastão doirado,
Em som lento e pausado assim lhe fala:
«Da parte do mui alto e poderoso
E temido senhor, rei Dom Afonso
De Portugal e Algarves, a Dom Paio,
Mestre de Santiago, cavaleiro
Muito nobre e esforçado, vem Dom Nuno;
Sua embaixada traz. »

Este, inclinando-se, ao Mestre, disse então:

«Senhor Dom Paio:
El-rei e meu senhor, que a vós me manda,
Vos envia saudar, como a quem preza
E muito estima vossas nobres partes,
E à respeitável Ordem de Santiago,
Cujo sois digno Mestre. Sabei como
Prouve ao muito alto rei de Leão, Castela,
De Toledo, de Córdova e Sevilha,
Múrcia e Jaén, imperador augusto,
Sempre feliz, a meu senhor e amo,
El-rei de Portugal, neste seu reino,
Investi-lo do Algarve e vos ordena
Que lhe entregueis castelo e fortalezas
E lugares e vilas que heis tomado
E preito lhe façais e homenagem,
Como a senhor e rei.»

Lope de Vega escreveu El Sol Parado, baseando-se em episódio lendário do cerco de Sevilha, no qual o sol parou para que as tropas cristãs pudessem guerrear em dia claro e, assim, ser mais eficientes no combate aos mouros. Este episódio é bem descrito no blog do Prof. José Ferreira, de 2009, já descrito acima. Trecho deste poema transcrevemos agora:

Mae. Santa María Señora,
Laurel, palma, huerto, fuente,
Ciprés, rosa, oliva y lirio,
Madre y Virgen ahora y siempre!
Detén Señora tu día,
Que mandar al Sol bien puedes
Que tiene a los pies la luna
Y tanta estrella en su frente.
Cristo, por cuya Fe santa
No ay aquí quien no profese
Defendiéndola morir,
Haz que el Sol su curso cese,
Y si Josué mereció
Que se detuviese, tenle
Por ser día que tu Madre
Nació para que nacieses.
Tu, Virgen, detén tu día.
Cam. Cielos, el Sol se detiene!
Mae. Santiago, Freiles, Santiago,
Cierra España, a ellos Freiles!

Comenzando el Sol a caminar un Ángel detenga el Sol y mientras este se hace con música adentro se da la batalla y entren e salgan acuchillándose Moros y Cristianos y Pelayo e salga después el Maestre y los suyos e tragan Moros cautivos e Filenay Mengo.

Mae.
Todo el tiempo que ha durado
Al pie dista fuerte sierra
La confusión de la guerra
Hemos visto el Sol parado.
¡Virgen, vuestro santo día
Mereció tan raro ejemplo!
Aquí he de labrar un templo
Llamado Detén tu día
Por memoria dista hazaña
Y su vencimiento raro.
Cam. Gran Josué, nuevo amparo
Del nuevo Israel de España,
Milagro es grande que Dios
Por el ruego de María
Hiciese claro el día
Porque vencieseis vos.
Labrad el templo que es justo,
Porque el agradecimiento
Causa en el cielo contento,
Y la ingratitud disgusto.


Ainda é o Prof. José Ferreira, no mesmo blog, que nos oferta com esta preciosidade:





















Outras obras literárias reproduzem os feitos de D. Paio.

Sobre D. Paio, transcrevo um trecho da Enciclopédia Universal Ilustrada Europeo-Americana, que exalta seus feitos:

       "Fantasías aparte, es innegable que su nombradía se asienta en una vida militar llena de gloriosos hechos, como lo demuestra el que se le confiase el mando del ejército español en aquel período verdaderamente heroico de la Reconquista. Fue Gran Maestre de la Orden de Santiago y tanto los monarcas portugueses como los castellanos, se disputaran el honor de tenerle à su servicio."

Os portugueses dizem que D. Paio Pires Corrêa está na bandeira nacional, pois conquistou todos os castelos algarvios que nela estão representados.

Historiadores espanhóis, como Miguel Ángel Ladero-Quesada, em sua obra Portugueses em La Frontera de Granada (En la España Medieval. 2000, 23:67-100), são unânimes em reconhecer a importância de D. Paio Pires Corrêa (Pelayo Pérez Correa, na versão em castelhano), como vemos a seguir:
"La primera presencia de origen portugués en relación con Granada se remonta al acto mismo de constitución del emirato pues, en aquel momento, entre los dirigentes políticos y militares que acompañaban a Fernando III se encontraba el maestre de Santiago Pelayo Pérez Correa, que había participado en el cerco de Jaén, cuya entrega por Muhammad 1 fue la condición previa para aceptar el reconocimiento del nuevo emirato. Sabemos que, después de] cerco de Jaén, el maestre aconsejó al rey proceder al ataque directo contra Sevilla; seria muy extraño que no hubiera dado también consejo a Femando III en relación con la cuestión de Granada. Pero también es cierto que Pelayo Pérez Correa había abandonado sus actividades portuguesas desde que fue elegido maestre de Santiago, en 1242, y, en especial, después de la posible ayuda que prestó a Afonso III para sustituir en el trono a su hermano Sancho II; sus actividades y su personalidad política se expresaron en un escenario hispânico general, ya que también ayudó a Jaime 1 de Aragón en su proyectada expedición a Tierra Santa en 1269.
Pero el maestre de Santiago actuó sobre todo en las zonas de guerra y frontera, esto es, en Murcia —cuya primera conquista protagonizó junto con el infante heredero Alfonso en 1243— y Andalucía. Su papel en la conquista de Carmona, Alcalá de Guadaira y Sevilla, donde tuvo a su cargo el cerco del arrabal de Triana, es bien conocido (1247-1248), así como la aportación de dinero y el apoyo militar que los santiaguistas hicieron para sofocar la revuelta mudéjar andaluza y murciana de los años 1264 a 1266: el maestre estuvo em Orihuela y acompañó a Jaime 1 cuando éste recuperó el reino de Murcia para su yerno Alfonso X de Castilla, mientras otros caballeros de la Orden de Santiago resistían en Lorca y en Huércal, donde tuvo el mando Martim Anes do Vinhal. Pelayo Pérez Correa murió en febrero de 1275, el mismo año en que los meriníes desembarcaron en la península y comenzaron sus ataques contra Andalucía, y el mismo año también en que murió el infante heredero del trono, Femando, cuando acudía a hacerlos frente. Pelayo Pérez Correa alcanzó uma famacomo caballero de pro casi comparable a la que rodeaba al conde de CastilIa Fernán González y al Cid Rodrigo Díaz; junto con ellos aparece mencionado en textos bajomedievales, como modelo de proeza y caballería cristiana, e incluso, para afianzar mejor esta imagen, se tejió la leyenda de un milagro en el que el maestre habría conseguido con sus rezos a Dios y a Santa Maria que se detuviera el sol unas horas para tener el tiempo de ganar la batalla trabada con los musulmanes en la actual zona de Llerena, donde el santuario de Santa María de Tudia o ‘detén tu día’ conmemora el prodigio que hizo del maestre un nuevo Josué.
Con Pelayo Pérez Correa concluía la época de la reconquista, en cuyas empresas andaluzas habían participado a título individual caballeros portugueses una vez terminada la conquista en su propio reino. Lo hicieron, como escribe el conde de Barcelos en el Livro de Linhagens, porque os fidalgos portugueses hiaô a castella muitas vezas por se provarem pellos corpos quando em Portugal mister delles nâo aviâo."

Segundo o historiador português José Augusto de Sotto Mayor Pizarro, em sua obra Linhagens Medievais Portuguesas (3 vols, Universidade Moderna, 1ª Edição, Porto, 1999), D. Paio teve os seguintes irmãos, texto que agora transcrevo:

1. Paio Pires Correia (1220-?).
2. João Correia, casado com Elvira Gonçalves Taveira.
3. Martim Pires Correia, casado com Maior Afonso de Cambra.
4. Soeiro Correia (1290-?), casado com Teresa Martins Espinhel.
5. Gomes Correia (?-1258), casado com Maria Anes Redondo (?-1297).
6. Paio Correia, "o alvarazento” (?-1250), casado com Maria Mendes de Melo, filha de Mem Soares de  
   Melo (1195-1262) e de D. Teresa Afonso Gato (1220-?).
7. Urraca Pires Correia (1230-?), casada com Estêvão Pires de Moles.
8. Sancha Pires Correia casada com D. Nuno Martins de Chacim, filho de Martim Pires de Chacim (1185-1258) e de Froile Nunes de Bragança.
9. Teresa Pires.
10. Mem Pires.
11. Gonçalo Pires Correia de Santarém, casado com Elvira Baralha.

Vamos nos socorrer, mais uma vez, com o Prof. José Ferreira, que dá uma breve descrição dos irmãos de D. Paio Pires Corrêa:
"Por terras de Basto, mencionam-se uma vez, em 1258, a esposa do filho Gomes Correia e uma outra vez os «filhos de Soeiro Correia». Nada mais. É bem diferente o que se passa cá por baixo.
Gomes Correia, afinal, fora criado em S. João de Bastuço e a sua esposa viveu no Louro, cercanias de Fralães, que continua a ser o lar, o ponto de partida(1). À sua esposa, mulher com certeza muito rica, chamavam D. Maria de Fralães. Será que foi Gomes Correia quem herdou a casa?
Soeiro Correia, esse viveu por algum tempo em Nine:
Foram aí acolhidos João Lourenço da Cunha e Gonçalo, filho de João Correia, e Estêvão Martins, filho de Martim Jejuno, e Soeiro Peres Correia.
Sabendo que os Lourenços da Cunha pertenciam à primeira nobreza, vê-se que estava bem acompanhado. Soeiro Correia virá a ter um genro do Louro, João Pires Velho, familiar com certeza de um Soeiro Pires Velho que se sabe que recebera João Peres Correia em Grimancelos.
João Peres Correia
é assinalado então em Grimancelos, mas também em Remelhe e em Santavaia de Arnoso. D. Mor Pais Correia casa para Molnes, hoje Remelhe. O seu marido, Estêvão Peres de Molnes, é mencionado; ao menos um dos seus filhos, Lourenço Esteves de Molnes, aparece em Remelhe, tendo protagonizado um amádigo. A presença de vários dos irmãos de Paio Peres Correia é assim assinalada na região: João, em Grimancelos, Arnoso e Remelhe; Soeiro, em Nine; Gomes, em S. João de Bastuço; (o marido de) D. Mor, em Molnes. Seriam crianças de Fralães. É de crer que com os outros acontecesse o mesmo, já que seria aí o lar paterno. João Correia, na idade adulta, continua a defender por cá interesses seus. A mulher de Gomes Correia, «D. Maria de Fralães», recebe uma renda no Louro, porque por aí passou ao menos parte da infância. Seria das redondezas. Verifica-se pois que o paço de Fralães (mencionado numas inquirições de D. Dinis como o paço de Paio Soares Correia) foi da maior importância para os antepassados imediatos e para os irmãos de D. Paio Peres Correia, pesem embora as razões que poderiam opor-se a esta constatação. Sendo assim, deverá aceitar-se que ele aqui terá passado os longos e doces anos da infância, que por aqui se terá feito homem e que a Fralães se terá mantido sentimentalmente ligado ao longo das andanças variadas e tantas vezes guerreiras da sua vida. Tudo isto configura uma situação que faz sentido se admitirmos a residência de Pêro Pais Correia em Fralães – onde lhe terão nascido os filhos."

"(Nota) Este Gomes Correia «teve também uma acção importante na reconquista. Em 1243, aparece a confirmar um privilégio do príncipe D. Afonso em que são doadas à Ordem de Santiago as vilas de Galera, Orce, e outras próximas, como recompensa dos serviços prestados aquando da reconquista de Chinchila, e no mesmo ano, quando o futuro rei sábio confirma a doação dos castelos de Serra e do Alto Segura à Ordem de Santiago, Gomes Pires fica tenente de importante praça de Cieza» (Actas das II Jornadas Luso-Espanholas de História Medieval, vol. III, Centro de História da Universidade do Porto, Porto, 1989, pp. 1030-1). «Foi casado com Maria Anes Redondo I, filha de João Pires Redondo I, um dos cavaleiros beneficiados no «Repartimiento» de Sevilha, e de Gontinha Soares de Melo» (loc. cit.)."


Igreja Matriz de São Pedro em Lourosa, Portugal. Estilo moçárabe.
Em 2012 a igreja fez 1100 anos. Construída em 912 d.C. A mais
antiga igreja portuguesa em funcionamento.

    D. Paio faleceu em 8 de fevereiro de 1275 em Talavera de la Reina, Espanha. Seus restos mortais foram levados no século XVI para Tentudia, província de Badajoz, sul da Espanha, palco de incontáveis batalhas em que D. Paio pelejou. Seu nome é lembrado em diversas cidades, com nomes de ruas e praças, em Portugal (Lisboa, Porto, Setúbal, Silves e Tavira) e na Espanha (Sevilha - bairro da Triana) e outras. Em Portugal temos a aldeia de Paio Pires, em Seixal, e a cidade e paróquia de Samora Correia, em Benavente. 

Assim, dou por encerrada esta tarefa de transmitir às novas gerações, e a todos os interessados em geral, informações sobre este importantíssimo personagem da história da Península Ibérica, antepassado dos Corrêa (Correia) de todo o planeta, que tanto serviço prestou às suas duas pátrias, tornando-se um grande herói de ambas. Desconhecido no Brasil, necessário se faz relembrar seu nome e seus feitos, verdadeiro exemplo de coragem, fé, esperança e amor ao seu torrão natal. Enfim, um homem extraordinário!

                                   ***


Neste link encontramos uma rápida referência aos feitos de D. Paio, realizado em Portugal:

No link abaixo podemos ver um vídeo sobre a região do Algarve, fronteira com a Espanha, palco de diversas batalhas vencidas por D. Paio:

https://www.youtube.com/watch?v=z2WqgmLkz8M

A Reconquista na Pensínsula Ibérica:

https://www.youtube.com/watch?v=zLv8FtSgpyg


A Reconquista em Portugal, um breve vídeo sobre o tema:

https://www.youtube.com/watch?v=B7F3fPHiY-8


No link abaixo, o Prof. José Hermano Saraiva nos dá uma aula magnífica sobre a História de Portugal. É dividido em vários capítulos, que podem ser vistos no YouTube.

https://www.youtube.com/watch?v=BdB9iPKewrw




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