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quarta-feira, 3 de abril de 2013

A Saga de Cornélio de Arzão


Capitania de São Vicente com as quatro vilas: S. Vicente, 
Itanhaém, Santos, São Paulo e aldeamentos indígenas 
sob a catequese dos padres jesuítas (1552-1597). 
Versão de Benedito Calixto.


O primeiro século após o descobrimento do Brasil caracterizou-se pelo duro período de viagens exploratórias para reconhecimento do litoral. Após levantamento, mais ou menos preciso, de toda a costa do Amazonas até o Rio da Prata, empreitada que se deu às custas de muitos sacrifícios, mortes por naufrágios, ou canibalismo já que havia diversas tribos bravias costeiras, houve uma busca incessante de conhecimentos sobre o interior da nova terra, que se mostrava promissora. Terra que se revelava também extremamente ameaçadora pela presença de tribos indígenas, algumas muito ferozes.

Em 1591, chega ao Brasil, mais exatamente a Salvador, Bahia, o flamengo, natural de Bruges, Flandres, Cornelius Arzam (nome aportuguesado para Cornélio de Arzão). Foi trazido junto com inúmeros outros técnicos, mestres de obras, construtores, engenheiros, arquitetos e pedreiros especializados, por D. Francisco de Sousa, o sétimo governador geral do Brasil. Tais profissionais haviam sido contratados para a construção de edifícios públicos e particulares em Salvador, técnicos de gabarito somente encontrados na Inglaterra, França, Holanda e Flandres. Naturalmente, grande parte deles era de origem judaica, incluindo Cornélio de Arzão, mas tudo indica que haviam se convertido ao cristianismo, isto é, eram cristãos-novos.

O governador D. Francisco de Sousa era membro distinguido da corte em Lisboa, tendo participado de batalhas no ultramar. Acompanhou o rei D. Sebastião em sua infausta jornada africana e foi um dos raros sobreviventes da elite portuguesa desaparecida na batalha de Alcácer-Quibir. Foi Governador-Geral do Brasil entre 1591 e 1602, em Salvador. Posteriomente, foi nomeado capitão-geral e superintendente das capitanias do Sul, entre 1608 e 1611, em São Vicente, quando morreu. Esta segunda função decorrera de seu grande interesse em descobrir minas de ouro e prata, já manifestado em sua administração na Bahia. Entretanto, o Nordeste não se revelara pródigo em minas e a região sudeste começava a dar indícios fartos de ser riquíssima, em seu interior. Foi nomeado pelo rei Filipe II. 

Entre 1580 e 1640 o reino de Portugal havia sido anexado ao de Espanha, em função da morte do rei D. Sebastião, em 1578, na batalha de Alcácer-Quibir, norte da África, em luta contra os mouros. A ascensão ao trono português  por Fernando II, de Espanha, também se deu pela morte do sucessor e tio de D. Segastião, o cardeal D. Henrique, em 1580. D. Francisco de Sousa foi nomeado em 1590, mas somente chegou à Bahia em 1591, com poderes para prover ofícios, militares ou civis, para nomear fidalgos, distribuir hábitos da Ordem de Cristo e nomear um ouvidor-geral para São Paulo. Entre algumas atividades nas quais se destacou estiveram os combates aos corsários ingleses Thomas de Cavendish e James Lancaster. Foi um dos mais estimados governadores-gerais da história do Brasil.

Em 1609, D. Francisco de Sousa, já estabelecido em São Paulo de Piratininga, levou consigo grande parte dos técnicos vindos da Europa para a Bahia, entre eles Cornélio de Arzão, para a construção de engenhos e edifícios de São Paulo. Pedro Taques não cita Arzão entre os técnicos (ou companheiros, como relata Alfredo Ellis Júnior em seu Meio Século de Bandeirismo, [1948], p. 34), mas tal fato é descrito por diversas vezes por Francisco de Assis Carvalho Franco em Os Companheiros de D. Francisco de Sousa (Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1929, apud Carvalho Franco, obra citada, p. 27). Silva Leme também confirma esta informação (Carvalho Franco, ibidem). Segundo Taunay, um desses companheiros, citado como “mineiro”, é Cornélio de Arzão (apud Pedro Calmon, História do Brasil, Vol. II, Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1959, p. 429).


Cornélio foi muito bem sucedido em sua missão, com salário elevado para os colonos da época, duzentos cruzados por ano. Casou-se com uma das moças de uma das mais respeitadas famílias de São Paulo, a filha do sevilhano Martim Rodrigues Tenório de Aguilar, D. Elvira Rodrigues. Só esse fato já é o suficiente para se acreditar que Cornélio havia se convertido ao cristianismo, isto é, tornara-se um cristão-novo, já que os casamentos eram realizados por padres seculares ou jesuítas, tudo dentro do rito cristão. Além do que, entre os judeus que mantêm o seu culto, os casamentos são realizados após um dos noivos, não-judeu, haver se convertido ao judaísmo e a cerimônia se realizar dentro do rito judaico. 


Quanto à origem judaica de Cornélio de Arzão, encontramos fortes indícios de sua veracidade em afirmações dos grandes historiadores: João Lúcio d’Azevedo (de Portugal), Pedro Calmon, Roberto Cochrane Simonsen e Alfredo Éllis Júnior (do Brasil). Este último, em seu clássico Meio Século de Bandeirismo (São Paulo. Companhia Editora Nacional, 1948), em nota à p. 37, nos informa:

“O ato inacreditável do rei Dom Manuel, em 24 de Dezembro de 1495, eliminando do reino uma fração importante de seu capital material, intelectual e demográfico, levou a gente de Israel, os renomeados sefardin, a espalhar-se pela Europa. Mas, eles concentraram-se, de preferência, nos Países Baixos, fazendo com que aumentasse o ativo material, intelectual e demográfico dessa região da Europa. Isso deveria tomar imenso impulso na segunda metade do quinhentismo, justamente quando deveria estar produzindo consequências o impensado ato de Dom Manuel, que, nesse ponto, foi menos afortunado. (João Lúcio d’Azevedo, “História dos Cristãos Novos”; Simonsen: “História Econômica do Brasil, Cia. Editora Nacional, Série Brasiliana). Assim sendo, deveriam existir nos Países Baixos, os vestígios dessa gente luso-israelita, que a cegueira fanatizada de Dona Isabel de Castela induziu Dom Manuel a eliminar do seu reino feliz. Quem nos assegura que, em pleno século XVII, estava a Holanda cheia desse elemento, é Pedro Calmon, no seu “História da Civilização Brasileira”, série Brasiliana, Companhia Editora Nacional, no XIV, p. 62).” 


Em 1610, Cornélio de Arzão construiu o edifício da matriz da vila de São Paulo, em sua primitiva versão já que, três séculos depois, reformada e modificada, tornar-se-ia a Catedral da Sé. Logo, tornou-se um homem rico, possuidor de engenhos de açúcar e de moagem de trigo, bem no centro de São Paulo, como no vale do Anhangabaú. São Paulo era já uma região valorizada, em que pese ser a vila ainda muito jovem, com apenas pouco mais de cinquenta anos de fundação. Dado seu espírito dinâmico e de forte empreendedorismo,  Arzão tornou-se um homem influente e respeitado na cidade, um homem de bem.



Matriz da Sé, em São Paulo, em 1810. Esta estrutura 
já havia sido remodelada e reconstruída, não correspondendo 
à que foi construída por Cornélio de Arzão, em 1610. 
Fonte: Moura, Paulo Cursino de. Evocações da Metrópole. 
3ª. Edição. São Paulo, Liv. Martins Editora S.A., p.24.


Teria sido assim até sua velhice e morte, não fosse o despeito pelo sucesso, a cobiça pelo bem alheio, o ódio religioso e a intolerância, introduzidos na vila desde seu início. Isso é bem documentado por Manuel Eufrásio de Azevedo Marques no seu antológico Apontamentos históricos, geográficos, biográficos, estatísticos e noticiosos da Província de São Paulo: seguidos da cronologia dos acontecimentos mais notáveis desde a fundação da Capitania de São Vicente até o ano de 1876 (Volume I, pp. 205-206).




Velha Matriz da Sé, em foto de 1860. In: Menezes, Raimundo.
         Aconteceu no Velho São Paulo. São Paulo. Coleção Saraiva, 1954.




Sobre Cornélio de Arzão transcrevemos Azevedo Marques:

"Natural de Flandres, nobre povoador de São Vicente, onde casou com D. Elvira Rodrigues, passando depois para São Paulo. Homem estimado e considerado, dispondo de recursos, a ele foi encarregado em 1610 a reedificação da matriz da vila de São Paulo pelos oficiais da câmara que então eram Matias de Oliveira, Belchior da Costa, Manuel da Costa do Pires e outros que nesse mesmo ano haviam para este fim derramado uma finta sobre os moradores.
Anos depois, em 1618, Cornélio de Arzão teve a infelicidade de incorrer no desagrado dos padres da companhia de Jesus, pelo que foi excomungado, e como consequência sofreu prisão por muitos anos e sequestro de seus bens, que foram arrematados no ano de 1620 em praça pública, sendo juiz da execução Custódio de Paiva e escrivão Simão Borges Cerqueira, como tudo consta do respectivo processo, que tivemos entre mãos.
Passada a perseguição, e já no último quartel de vida, viu-se Cornélio de Arzão exausto de recursos para a subsistência, pelo que pediu e obteve, a 20 de dezembro de 1627, de Álvaro Luis do Vale, capitão-mor loco-tenente do donatário da Capitania, a sesmaria que consta do requerimento que em seguida transcrevemos.
Ei-lo: “Sr. Capitão e Ouvidor – Diz Cornélio de Arzão, morador na villa de S. Paulo, que há vinte anos pouco mais ou pouco menos, veio a esta Capitania de S. Vicente em companhia de D. Francisco de Sousa, que deus tem, governador geral que foi das minas de ourto e prata e mais metaes descobertos e por descobrir, por mandado de Sua Magestade para vir edificar os engenhos das ditas minas da dita villa de S. Paulo, com duzentos cruzados de salário por cada anno, assistindo sempre ele suplicante junto à pessoa do dito governador, acudindo a seus mandados, e se casou na dita villa de S. Paulo, com uma filha legítima do capitão Martim Fernandes Tenório, pessoa nobre, conquistador povoador e da governança da terra, da qual tem filhos e filhas, pelo que pede a V.M. uma légua de terras em quadra, que foram de Antônio Pinto, Miguel Ayres Maldonado, e dos Erasmos Esquetes de que já está de posse e tem feito benfeitorias e que começam das cabeceiras das ditas terras do caminho de Piassagoera até o cume da serra e d’ahi correrão até o Cubatão-mirim, com suas entradas e sahidas aguas e logradouros. – Despacho. – Dou ao suplicante as terras que pede. – Santos, 20 de dezembro de 1627. – alvaro Luiz do Valle”.
Cornélio de Arzão é o tronco de numerosa descendência do seu apelido, que distinguiu-se nos séculos XVII e XVIII nas explorações e descobertos de minas de ouro.
Faleceu no ano de 1638, deixando os seguintes filhos:
1-    D. Maria de Arzão.
2-    Manuel Rodrigues de Arzão, casado com D. Maria de Azevedo.
3-    D. Ana Rodrigues de Arzão, casada com Belchior de Borba.
4-    D. Suzana Rodrigues de Arzão, casada.
5-    Braz Rodrigues de Arzão, capitão-mor de Itu, falecido em 1680.
6-    Cornélio Rodrigues de Arzão, capitão-mor de Itu, casado com D. Catarina Gomes.
(Cartório de Órfãos 1º. de São Paulo, inventário de Cornélio de Arzão, e auto do sequestro dos seus bens no anno de 1628. – Arquivo da Câmara de S. Paulo, tit. 1618)."



Retrato imaginário de um morador de São Paulo,
ao tempo de Cornélio de Arzão. Página de rosto 
do livro No Tempo dos Bandeirantes, 4ª. Edição. 
O livro e seus desenhos são de autoria do cartunista
e cronista de São Paulo, Belmonte (Benedito Barreto
Bastos Carneiro). São Paulo. Edições Melhoramentos, 
1948.

O prestígio de Cornélio de Arzão em São Paulo era inegável, desde os tempos de D. Francisco de Sousa, de quem era amigo próximo e de relacionamento de grande respeito. D. Francisco de Sousa faleceu precocemente, em 1611, exaurido pelos esforços de descobrir as minas de ouro, prata e pedras preciosas, tesouro que El-Rei o havia incumbido encarecidamente de fazer. Havia em Portugal a crença de que pelos sertões da Capitania de São Vicente, ou mais para o noroeste e oeste, haveria tanto ouro e prata quanto os espanhóis haviam descoberto em Potosí, atual Bolívia.

D. Francisco era um fidalgo da corte, um homem com experiência militar nas lutas em África, quando pereceu o rei D. Sebastião, e havia demonstrado boa capacidade administrativa no seu período de governador-geral do Brasil, na Bahia. Apesar de tudo, era criticado por muitos que o consideravam corrupto, e o acusavam de surrupiar metais preciosos e pedras e não pagar o quinto à Coroa. Tanto que recebeu a não muito dignificante alcunha de D. Francisco das Manhas. Mas, no geral, era admirado e respeitado pela maioria dos habitantes da Capitania.

Arzão rapidamente enriqueceu em decorrência de seu elevado salário, mas também por seu espírito empreendedor e por suas atividades profissionais exercidas com denodo e proficiência. Azevedo Marques aqui nos descreve datas de negócios que, entretanto, se confrontam com as informações prestadas por outros genealogistas e historiadores, como Silva Leme e Carvalho Franco. Ao descrever uma sociedade que Cornélio de Arzão presumivelmente teria num engenho de ferro de beneficiamento de trigo, desde a época da morte de D. Francisco de Sousa, Azevedo Marques, às págs. 197 e 198 de sua referida obra, nos diz, aqui transcrito no vernáculo da época:

"Dezoito anos mais tarde desaparecerá, por sua vez, a própria fábrica, com a morte de Francisco Lopes Pinto, ocorrida no ano de 1629. Essa a versão tradicional, registada pelos que se ocuparam da matéria. É curioso que no inventário dos bens deixados por Lopes Pinto já não fique o engenho de ferro, e que seu testamento apenas mencione as dívidas e contrariedades resultantes do negócio. Mas o engenho vai surgir em outro inventário, o de um genro de Clemente Álvares, Luis Fernandes Falgodo, que morrera no ano anterior em Santo Amaro. Avaliaram-no em quinhentos cruzados, isto é, duzentos mil-réis, correspondendo metade dessa soma à parte do defunto. Com a declaração de que “sendo caso que o malho e safra e bogua (em itálico, no original) se achar ser de Sua Magestade, sempre estarão no dito engenho como té agora estiveram pagando o quinto a Sua Magestade como até agora se fêz, com a mais ferramenta necessária para o dito engenho mover... (1)
(1)  Inventários e Testamentos, VII, S. Paulo, 1920, p. 461.
A outra metade estaria talvez, em poder de Cornélio de Arzão, pois figura no inventário que de toda a sua fazenda mandou proceder a Santa Inquisição, naquele mesmo ano de 1628 (2). Apenas os avaliadores deixaram de orçá-la neste caso, “por não haver pessoa que o entenda”.
(2)  Inventários e Testamentos, XII, S. Paulo, 1921, p. 97."




Sáo Paulo - a colina histórica e as primeiras construções religiosas.
In: Menezes, Raimundo. Aconteceu no Velho São Paulo. São Paulo. Coleção Saraiva, 1954.


Sobre o patrimônio de Cornélio de Arzão, Azevedo Marques, à pág. 214 da mesma obra nos relata:

"Em São Paulo, também um flamengo – Cornélio de Arzão – aparece entre os primeiros donos de moinhos. O seu, porém, era de água, provavelmente de roda d’água e, segundo a carta de data que lhe foi concedida em 1616, situou-se primeiramente nas beiradas do Anhangabaú entre a subida para Santo Antônio e o sítio que fica abaixo de São Bento. Doze anos mais tarde estava em Santo Amaro, às margens do Rio Pinheiros e perto do Engenho de Ferro. Do inventário de sua fazenda, mandado fazer em 1638, pela Inquisição, consta que esse “moinho de moer trigo moente e corrente se avaliou então em dez mil réis. Posto em pregão, alguns dias depois arrematou-o Diogo Martins da Costa “que nele lançou quatorze mil-réis que logo pagou em dinheiro de contado” (Inventários e Testamentos, XII, São Paulo, 1921, pp. 90-118)."




   Convento e Igreja do Colégio dos Jesuitas. 
Fundação de janeiro de 1554. 
In: Menezes, Raimundo. Aconteceu no Velho São Paulo.
       São Paulo. Coleção Saraiva, 1954.



Silva Leme aponta as divergências de datas dos fatos ocorridos com Cornélio de Arzão, onde faz uma correção das mesmas que, no seu entender, estariam mais próximas da realidade. A descrição da linhagem de Cornélio de Arzão pode ser encontrada na Titularidade Arzam (Vol VII - Pág. 315 a 343), de sua Genealogia Paulistana, quando reproduz o texto de Azevedo Marques, mas numa nota ao pé da página faz suas retificações:

"Esta família, que contou entre os bandeirantes e exploradores do sertão vários vultos preeminentes, teve começo em São Paulo, em Cornelio de Arzam. Natural de Flandres, homem estimado e de recursos, que veio à capitania de São Vicente na companhia de Dom Francisco de Sousa, para edificar os engenhos das minas da Vila de São Paulo com 200 cruzados de salário, como consta do requerimento que fez em 1627 ao capitão-mor Alvaro Luiz do Valle, em que pedia uma sesmaria, que lhe foi concedida, atenta à pobreza em que então se achava, por terem sido seus bens confiscados em 1620, em conseqüência da pena de excomunhão contra ele lançada pelos padres da Companhia de Jesus (vide Azevedo Marques, Apontamentos Hist.) (1)"
____________________
"(1) Cremos que a data (1620) mencionada por Azevedo Marques para o confisco dos bens de Cornelio de Arzam e a do requerimento de sesmaria são erradas, porque dos autos do inventário do dito Cornelio de Arzam consta que o confisco, isto é, a arrecadação e praça dos bens promovidas pelo meirinho da Inquisição teve lugar em 1628, quando ainda estava preso dito Arzam. Portanto o requerimento deve ser posterior a esta data.
Na página 316, Silva Leme continua:
Este Cornelio de Arzam foi quem reconstruiu a matriz de São Paulo em 1610 por autorização da câmara da mesma Vila composta dos oficiais: Mathias de Oliveira, Belchior da Costa, Manoel da Costa Pino e outros. Casou com Elvira Rodrigues f.ª. do capitão-mor Martim Fernandes Tenorio de Aguilar, pessoa nobre e da governança da terra, V. 4º pág. 508; e faleceu em 1638. Teve os 6 f.ºs. seguintes (como no texto de Azevedo Marques – N.A.): Cap. 1.º Maria de Arzam; Cap. 2.º Manoel Rodrigues de Arzam; Cap. 3.º Anna Rodrigues de Arzam; Cap. 4.º Suzanna Rodrigues de Arzam; Cap. 5.º Capitão-mor Braz Rodrigues de Arzam; Cap. 6.º Cornelio Rodrigues de Arzam."


 
Como já assinalamos, Cornélio de Arzão, pelo que se depreende dos relatos de Azevedo Marques, Silva Leme, Carvalho Franco e outros, era um profissional muito bem pago (duzentos cruzados de salário) e, dentre outras edificações, foi o responsável pela construção da primeira Igreja Matriz, futura Matriz da Sé, em 1610, de São Paulo. Ela passou por diversas reformas, tendo sua arquitetura sido modificada. Os primeiros desenhos e fotografias desta obra não revelam a estrutura e o modelo arquitetônico realizados por Arzão. Foi demolida no início do século XX, dando lugar à atual Catedral da Sé.




Largo da Sé em 1887. Esquina da Rua do Imperrador
        (depois R Marechal Deodoro). A esquerda onde se
           instalara a Secretaria e Cabido da Sé Catedral.
         

In: Menezes, Raimundo. Aconteceu no Velho São Paulo.
   São Paulo. Coleção Saraiva, 1954.

A origem judaica de Cornélio de Arzão (na ocasião quase certamente já era cristão-novo) não passou despercebida por muitos, dentre eles os jesuítas. Provavelmente foi acusado de ser judaizante (praticar o judaísmo às escondidas, no recesso do lar) e preso. O processo que sofreu, a partir de 1617/18, acusado que foi pela Inquisição de crimes (não pudemos constatar quais foram no relato de qualquer historiador e em nenhuma publicação encontramos qualquer referência a supostos delitos), levou-o à prisão, ocorrida em 1620. Foi levado para Portugal e permaneceu encarcerado em Setúbal, ao sul de Lisboa, por 6 anos. Quando foi libertado, ao se verificar a inconsistência das provas contra ele, foi autorizado a embarcar de volta ao Brasil, tendo saído direto da prisão para o navio em Setúbal. Não lhe foi permitido manter contatos com o povo da metrópole. Ao voltar, refez sua vida, retomou seus negócios regulares, honestos por sinal, recuperou sua honra, dignidade e o respeito que a população de São Paulo lhe devotava. Seu patrimônio, apenas em parte, foi reconstruído.




A colina onde nasceu São Paulo, aqui vista após o vale do
         Anhangabaú. Ca. 1860. Nesta rua hoje se situa o Viaduto do Chá
         In: 
Menezes, Raimundo. Aconteceu no Velho São Paulo.
        São Paulo. Coleção Saraiva, 1954.

Seus bens haviam sido sequestrados pela Inquisição e levados à hasta pública pelo meirinho. Tal fato levou-o a uma pobreza tal que, possivelmente em 1627/28, solicitou uma sesmaria para sua sobrevivência. Isso revelou sua extraordinária capacidade de recuperação e empreendedorismo. Poucos de seus bens lhe haviam sido restituídos e ele teve de recomeçar praticamente do zero após a expropriação. Obteve sua sesmaria na região da atual Cubatão, onde trabalhou intensamente por alguns anos. Provavelmente, em decorrência de seu trabalho ingente, profícuo, tenaz e também pelo estresse acumulado em anos de perseguição injusta, faleceu em 1638, deixando algum patrimônio aos seus herdeiros, seis filhos, como já descrito.




Igreja da Misericórdia. Demolida em 1888.
In: Menezes, Raimundo. Aconteceu no Velho São Paulo.
        São Paulo. Coleção Saraiva, 1954.



É uma incógnita até hoje os reais motivos da perseguição que a Inquisição moveu contra Cornélio de Arzão. Os autores citados, falam apenas em divergências com os padres da Companhia de Jesus (jesuítas). Certamente Arzão era um cristão-novo, e por algum tempo tentou evitar problemas com as autoridades eclesiásticas de São Paulo. A acusação de ser judaizante, baseada em motivos puramente religiosos, sem outros argumentos mais consistentes, poderia ser uma alegação fraca demais dada importância do flamengo em São Vicente e na vila de São Paulo do primeiro quartel do século XVII. Provavelmente houve outras causas menos nobres.




Uma rua que subia para o largo da Sé. Ca. 1860.
In: 
Menezes, Raimundo. Aconteceu no Velho São Paulo.
        São Paulo. Coleção Saraiva, 1954.


Pudemos encontrar uma amostra do que possivelmente ocorreu na descrição de outro autor, Alcântara Machado, em seu clássico Vida e Morte do Bandeirante, cuja primeira edição é de 1929. Em seu relato podemos observar toda a solércia de que Arzão foi vítima, como era o ambiente de inveja, de ódio sub-reptício, o ambiente religioso-persecutório da época propiciado pela Inquisição, apesar de estarmos vivendo nos trópicos, bem longe da metrópole, tão próximo ao sertão, onde os costumes eram bem mais relaxados e a moral extremamente flexível. Alcântara Machado é por demais esclarecedor dos fatos escabrosos que ocorreram quando nos diz (Belo Horizonte. Editora Itatiaia Ltda – Editora da Universidade de São Paulo, 1980, pp. 193-195):


"São fatos posteriores à época de que nos vimos ocupando. Mas um dos inventários em estudo denuncia que, já em começos do século XVII, a Inquisição corveja sobre a cabeça e a fortuna dos vicentistas.
Provam-no os autos, em que se dá conta de toda a fazenda sequestrada e botada em inventário de Cornélio de Arzam, flamengo, aqui morador, pelo Santo Ofício.
... A 1º. de abril desse ano, por ordem e mandado do senhor inquisidor Luiz Pires da Veiga, o mesmo deputado do Santo Ofício que, em 1626 percorreu como visitador as colônias africanas o juiz ordinário Francisco de Paiva, se transportou ao lugar donde chamam Piratibae levando consigo Manuel Ribeiro, meirinho da Santa Inquisição e os tabeliães Simão Borges de Cerqueira e Fernão Rodrigues de Córdova.
Era meia-noite, mais ou menos, quando chegou a comitiva à roça e fazenda do desventurado. O meirinho bateu à porta da casa, dizendo, da parte da santa inquisição, que lha abrissem. Sobrevindo a mulher do réu, mandou-lhe o juiz que entregasse as chaves da casa e de todas as caixas que tivesse. Na manhã seguinte começaram o arrolamento e a avaliação dos bens, prestando os avaliadores o juramento aos Santos Evangelhos sobre a cruz que o meirinho traz no peito, insígnia do Santo Ofício. Nada escapou às garras da Justiça: duas peças de Guiné, ferramentas de lavoura e de carpintaria, pratos de estanho, prato e tigelas de louça de Lisboa, retalhos de sarja, de raxeta, de picote, de bertanjil, de baeta, de tafetá, de canequim, de sarjeta do senhor, de bombazina, de paratudo, de pano de algodão, meias velhas, ligas de tafetá pardo guarnecido com suas pontas, um saio de mulher, de grisê azul passamado, vinte e sete grãos de ouro, quatro aljofres, trinta e duas patacas, um esgaravatador sobredourado, um relicário e um óculo de Flandres de olhar ao longe, que se não avaliou por não se saber o que vale.
Em continuação foram sequestrados um outro sítio com o seu moinho de moer trigo moente e corrente, a metade do Engenho de Ferro, que não se avaliou por não haver pessoa que o entenda, as casas da vila, as dividas ativas. Constam estas últimas de um termo das pessoas que saíram a excomunhão, isto é, que, para não incorrerem em semelhante pena, acusaram em juízo o que deviam ao preso. Entre esses devedores figuram Bernardo de Quadros e os herdeiros de Belchior da Costa, responsáveis pelo que se deve a Cornélio de Arzam das obras que fez na Igreja Matriz, como oficiais da república que eram no tempo que se arrecadou a finta da dita Igreja.
Com a venda dos bens em hasta pública e a arrecadação das dívidas terminam os autos. Deles não consta, nem os cronistas esclarecem, qual o desfecho do processo.
Mas o erudito investigador Félix Guisard Filho teve a fortuna de encontrar nos arquivos da Torre do Tombo (secção Inquisição) os autos do processo, e a gentileza de comunicar-me a cópia, que obteve, da decisão. Eis, guardada a ortografia do original, o que diz a sentença: “Acordam os inquisidores e deputados da Santa Inquisição... que vistos estes autos e qualidade das culpas de Cornélio Arzinga... flamengo, nelles conteúdo e asyla (?) diligencia no caso feita, cõ o mais que pelos dictos se mostrar, mandão que o dito Cornelio seja solto e se va em pas e do proprio onde está se hirá a embarcar para sua terra, e não entrará na villa de Setubal, onde foi preso... e o amostão que faça todolos auctos de bom catholico christão, e se confesse as 3 pascoas do anno, e nelas receba o Santissimo Sacramento de conselho de seu cura e que seja muito atentado em suas falas nos casos semelhantes, sob pena de ser gravemente castigado.”
Daí se vê que Cornélio foi preso, não em S. Paulo, mas na metrópole, e que as suas culpas eram despidas de gravidade, consistindo provavelmente em palavras levianas, de ortodoxia duvidosa.
Restituido à liberdade, Cornélio de Arzam voltou a S. Paulo.
O inventário, a que se procedeu, quando de seu falecimento, em 1638, demonstra a existência de um acervo estimado em 562$740. (Itálicos no original)."


O cronista e cartunista de São Paulo, Belmonte, cujo nome verdadeiro era Benedito Carneiro Bastos Barreto, em sua obra No Tempo dos Bandeirantes, 4ª. Edição, publicado pelas Edições Melhoramentos, em São Paulo (1948), reproduz este texto quase na íntegra, mas afirma, sem apontar suas fontes históricas, que Cornélio de Arzão não era judeu ou cristão-novo, mas somente de nacionalidade flamenga. Como Belmonte não era historiador e sim um grande e brilhante cartunista e cronista (foi o ilustrador da obra de Monteiro Lobato), ficamos com os historiadores que afirmam a etnia judaica de Arzão.

Em suma, Arzão foi acusado, processado, julgado, condenado e preso, passando alguns anos no cárcere, pelo único crime a ele atribuído, que foi o de manifestar algumas idéias, ditas um tanto precipitadamente ou imprudentemente. Pelo menos, é o que deduzimos dos relatos anteriores.

 Entretanto, Alcântara Machado escancara a verdade: Arzão foi perseguido por que era credor de algumas pessoas, que, decididas a não lhe pagar as dívidas, o acusaram junto ao Santo Ofício de São Paulo, na época conduzido pelos jesuítas. Estes, em vez de apurar a verdade dos fatos, por ser Arzão um cristão-novo, sempre motivo de suspeitas dentro da Igreja (enfatizamos novamente que o povo o admirava e o tinha em elevada estima), e por ser um homem rico para os padrões da São Paulo de Piratininga do início do século XVII, preferiram seguir o roteiro tenebroso inquisitorial, cuja tradição já durava cinco séculos. Um absurdo, inimaginável nos tempos atuais!

â â â


Desde a chegada dos primeiros jesuítas ao Brasil, inicialmente na Bahia e, em seguida, à Capitania de São Vicente, eles tiveram uma postura louvável e humanitária em relação à população indígena. Opunham-se à escravização dos índios, procuravam catequizá-los e trazê-los para a fé cristã (geralmente conseguiam isso através da catequese das crianças indígenas – os curumins – que, acabavam por atrair seus pais relutantes para o cristianismo). Aprendiam rapidamente as línguas dos nativos, anotavam sua gramática e escreviam espécies de dicionários, e mantinham bom relacionamento com diversas tribos tupiniquins do litoral. Atestam-no seu enobrecedor trabalho junto aos índios guaranis nos Sete Povos das Missões, região do atual estado do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, bem como em território Uruguaio, Argentino e Paraguaio.

Entretanto, não foram poucos os episódios em que os jesuítas foram vítimas da incompreensão dos indígenas e das constantes guerras travadas entre os portugueses contra diversas tribos inimigas, como os carijós, tapuias, tamoios, caetés, etc. Diversas dessas tribos haviam se aliado a invasores intrusos como os franceses, ingleses, espanhóis e até holandeses. Muitos foram assassinados e canibalizados em rituais religiosos por diversas tribos. É necessário que façamos aqui uma homenagem a esse espírito superior dos jesuítas, notadamente aqueles que seguiam as orientações de Nóbrega e Anchieta. Estes, por sua vez, haviam sido orientados pelo fundador da ordem da Companhia de Jesus, Inácio de Loyola.

Por outro lado, sua defesa intransigente dos índios na América portuguesa, sua luta para impedir que fossem aprisionados durante as incursões pelo sertão, através das entradas e, posteriormente, das bandeiras, sua incansável luta para evitar que fossem vendidos e escravizados pelo homem branco, merecem nosso respeito, consideração e verdadeira admiração. Mas exatamente essa conduta humanitária, diríamos hoje defesa intransigente dos direitos humanos universais, acabou acarretando não poucos e pequenos dissabores para os padres da Companhia de Jesus. Desde o último quartel do século XVI havia uma crescente animosidade entre os colonos contra os jesuítas, que impediam seu trabalho de aprisionamento e escravização do gentio. A animosidade foi crescendo, notadamente após os massacres efetuados pelas bandeiras paulistas nos territórios do sul e do oeste. Esses episódios azedaram de vez a relação dos jesuítas com o povo da Capitania de São Vicente, que vivia uma situação de penúria econômica, com a fome e a pobreza grassando no território em função da pouca capacidade do solo em produzir bons canaviais, então a grande riqueza do Brasil, e principal fonte de renda da colônia através das exportações da cana de açúcar. As entradas em busca do ouro em território da capitania de São Vicente e, mais ao sul, na região do Guairá, foram decepcionantes. O empobrecimento geral vinha, em parte, da dificuldade que os colonos encontraram para assentar os índios aprisionados nos canaviais. Os jesuítas foram progressivamente acusados de atuar contra a economia da capitania, ameaçando sua própria sobrevivência.

Acrescente-se a isso um gradual desvirtuamento da função e dos métodos de trabalho dos jesuítas que, após sucessivas levas de novos padres que chegavam da metrópole, passaram a adotar uma metodologia heterodoxa de angariar fundos para a instituição. Na dificuldade cada vez maior de conseguir recursos financeiros para suas obras, manutenção de suas igrejas, mosteiros, conventos e escolas, passaram a cobrar taxas da população não existentes nos tempos de Nóbrega e Anchieta.

Por um acaso, descobrimos, ao pesquisar apontamentos na internet sobre a história da cidade de Cubatão, relatos diversos de comportamentos nada recomendáveis perpetrados por jesuítas, algumas décadas após a morte desses primeiros grandes missionários. Diferentemente dos primeiros de seus pares, fundadores de São Paulo, como Manoel da Nóbrega, José de Anchieta e outros valorosos religiosos, os sucessores na administração da Companhia de Jesus na capitania de São Vicente, portavam-se de forma venal e condenável, revelando-se mercantilistas e mesquinhos no trato com a coisa pública e com as tarefas rotineiras da administração da capitania, do início do século XVII.

A professora Wilma Therezinha Fernandes de Andrade, que selecionou e organizou o livro Antologia Cubatense, publicado em 1975 pela Prefeitura Municipal de Cubatão, nas págs. 159 a 160 (Disponível em: http://www.novomilenio.inf.br/cubatao/ch082.htm), descreve a expulsão dos jesuítas da capitania, em 1640, episódio desencadeado pelo poder excessivo e pela exploração financeira do populacho, episódios que há muito vinham preocupando as autoridades laicas e o povo. Aqui transcrevo o relato da professora:


"A expulsão dos jesuítas foi provocada pela forte oposição que esses padres faziam à escravização dos índios. Essa oposição foi acirrada pelo Breve de Urbano VIII, de 22 de abril de 1639, que proibia o cativeiro dos índios, e pela lei régia de 31 de março de 1640, que ia além e mandava restituir os cativos. Inconformados, os procuradores das Vilas de Santos, S. Paulo, Mogi-Mirim, Parnaíba e Iguape reuniram-se em São Vicente e decidiram pela expulsão dos jesuítas da Capitania de S. Paulo.
De 13 de julho de 1640 foi a sentença da expulsão pela junta das Vilas. Tiraram os das vilas e cidades vizinhas e os ajuntaram na cidade de S. Paulo, de onde foram expulsos. (LEITE, Serafim S.J. História da Cia. de Jesus no Brasil. 10 volumes. Lisboa, Livraria Portugália, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1938, vol. VI, p. 258)."


A história dos jesuítas no Brasil data das primeiras expedições colonizadoras e marcaram definitivamente, e de vários modos, a história do Brasil e, em particular, da Capitania de São Vicente. Depois de Manoel da Nóbrega e José de Anchieta, eles chegavam em levas cada vez maiores, e pouco bastou para que a cobiça lhes tomasse os corações e mentes. Vendo a importância econômica e estratégica dos direitos de passagem dos viajantes entre a baixada de São Vicente e da incipiente Santos, para o planalto de Piratininga, onde já despontava a vila de São Paulo como uma das economias mais pujantes do Brasil, em que pesem as dificuldades na produção da cana de açúcar em decorrência do solo muito inferior ao de Pernambuco e da Bahia para esse propósito, direitos esses que eram cobrados desses viajantes, ao transporem rios, riachos, lagoas, pântanos (abundantes na região), eles perceberam uma excelente oportunidade de ganhar muito dinheiro. Para tal, tinham que adquirir, ou se assenhorear, dos terrenos entre estas duas vilas fundamentais da economia paulista, divididos em sesmarias maiores ou menores, entre diversos proprietários, para uni-los em uma só e grande propriedade. Isso foi obtido por diversos meios, empreitada que resultou na posse pelos padres da Companhia de Jesus de um imenso terreno que ficou conhecido como a Fazenda Geral de Cubatão. Esta fazenda, organizada pelos jesuítas, era composta da união das terras das seguintes sesmarias, cujos proprietários anteriores foram:


1º - Antonio Rodrigues de Almeida, demarcada em 1556;
2º - Cornélio de Arzão em 1627;
3º - Pedro Corrêa, em 1538;
4º - Francisco Pinto, em 1533;
5º - Ruy Pinto, em 10/2/1533;
6º - Pedro Góes, em 10/10/1532.


Vimos, algumas páginas antes, a descrição de Azevedo Marques, do sequestro dos bens de Cornélio de Arzão, em particular desta sesmaria, em que um dos lados margeava o Cubatão-mirim. Os jesuítas pleitearam e obtiveram a exclusividade na exploração desses serviços e foram adquirindo um poder crescente. Os conflitos com o poder laico e os colonos não tardou em surgir. O que culminou com sua expulsão da capitania, em 1640.

Após apelos do rei D. João IV (antigo Duque de Bragança, aclamado rei neste mesmo ano, após o desmembramento do reino de Portugal do reino de Espanha, fato conhecido como Restauração), essas terras foram devolvidas aos jesuítas. Mais terras foram incorporadas ao seu patrimônio, como atestado em documentos denominados Histórico Dominial, cujas cópias foram obtidas pelo Arquivo Histórico de Cubatão junto à Procuradoria da Fazenda Nacional em São Paulo, redigido em 24 folhas, no início da década de 1990.

Após tomar novamente posse das terras que perderam, os jesuítas acrescentaram algumas outras, às seis sesmarias acima relacionadas. Mais três propriedades foram incorporadas ao patrimônio jesuítico, terras que, anteriormente, pertenciam aos seguintes proprietários:

7º - Cel. Manoel Antunes Belém de Andrade e s/m. Em 28/12/1743, de dois sítios: Queirós e o que foi comprado em 1687 de José Corrêa de Leme.
8º - Mestre do Campo Diogo Pinto do Rego, em 30/9/1745 – o sítio "Cubatão do Cardoso". E
9º - Domingos Leite de Carvalho em 3/9/1689.

Conclui-se que a Fazenda Geral do Cubatão, dos padres da Companhia de Jesus, era uma enorme gleba de terra, já que englobava terrenos antes pertencentes a nove proprietários. O poder dos jesuítas na região era, portanto, ameaçador. A insatisfação do poder laico e da população persistiu por mais de cem anos, até que, sob a regência do Marquês de Pombal, os jesuítas foram definitivamente expulsos de todo o território português, metropolitano e ultramarino, em carta régia de 19 de janeiro de 1759. Os jesuítas brasileiros da Capitania de São Vicente foram embarcados para o Rio de Janeiro, de lá para Lisboa e, finalmente, encaminhados para a Itália.

â â â

Pelo que pudemos concluir, Cornélio de Arzão foi por duas vezes punido, pela Inquisição, organizada pelos jesuítas (sem acusações de heresia). Na primeira, como relata Azevedo Marques, em 1618, quando perdeu seu moinho de ferro e outras propriedades. Na segunda, como dizem Silva Leme e Carvalho Franco, em 1628, quando perdeu sua sesmaria.

Não somos anticlericais, não temos preconceito contra a Igreja Católica (dos tempos atuais), temos grande respeito por ela, como ademais pelas demais igrejas e pelas outras religiões. Entretanto, consideramos que Cornélio de Arzão foi vingado exatamente 121 anos após sua morte. Sua memória e honorabilidade, da mesma forma, resgatadas. Esses fatos vieram a lume no Brasil muito recentemente, após a publicação em Portugal, em 1938, por Serafim Leite, da obra História da Companhia de Jesus no Brasil, como referenciado acima, e também após a divulgação pela professora Wilma Therezinha Fernandes de Andrade, na obra que organizou, Antologia Cubatense, em 1975, e a publicação do Histórico Dominial, copiadas do Arquivo Histórico de Cubatão junto à Procuradoria da Fazenda Nacional em São Paulo, no início da década de 1990.

A Fazenda Geral de Cubatão foi incorporada ao patrimônio público, fato que permanece até os dias atuais, salvo terrenos que sofreram invasão popular pelos sem-teto. Toda esta área é, atualmente, uma das regiões mais industrializadas do país, sendo que aí se localizam algumas de nossas maiores indústrias de ponta.

Aos interessados em mais informações sobre Cornélio de Arzão, sugerimos ver o Anexo I, ao final deste capítulo, no qual as genealogistas paulistanas Bartyra Sette e Regina Moraes Junqueira, transcrevem seu inventário, no Projeto Compartilhar, disponível no site: www.projetocompartilhar.org.

Ainda, e encerrando o relato sobre Cornélio de Arzão, transcrevo Francisco de Assis Carvalho Franco, em seu Dicionário de Bandeirantes e Sertanistas do Brasil, Editora Itatiaia Ltda – Editora da Universidade de São Paulo, 1989, pág.44:

"Natural de Flandres, veio com o governador D. Francisco de Sousa, para a vila de São Paulo, em 1609, como mineiro e com a missão especial de construir engenhos de ferro. Casou-se com Elvira Rodrigues, filha de Martim Tenório de Aguilar. Muito ativo e empreendedor, foi o primeiro que em 1613 introduziu em São Paulo a lavoura do trigo, construindo para sua indústria um moinho no Anhangabaú. Foi quem reconstruiu, em 1610, sob o encargo da câmara, a igreja matriz de São Paulo. Obteve do capitão-mor Álvaro Luís do Vale, em 1627, uma sesmaria de légua em quadra no caminho de Piassagüera. A Inquisição, em 1628, colheu-o em suas malhas, por pertencer o mesmo à religião reformada. Encarcerou-o durante anos e procedeu ao sequestro de seus bens, que eram, para o tempo, elevados. Não esmoreceu, no entanto, o rijo flamengo a todas estas vicissitudes e faleceu em 1638, deixando outra fortuna que soube angariar pelo seu trabalho e pela sua honestidade. Constituiu em São Paulo o tronco de numerosa descendência desse apelido, uma plêiade de bandeirantes dos mais arrojados e dos mais ricos dos séculos XVII e XVIII (Azevedo Marques – Apontamentos, cit., I, 109. – Inventários e Testamentos – XII, 27-71. – Taunay – História das Bandeiras – I, 173)."


ANEXO 1

Projeto Compartilhar

Coordenação: Bartyra Sette e Regina Moraes Junqueira

SL. 7º, 315, Título - Cornélio de Arzam, natural de Flandres, faleceu em 1638, casou com Elvira Rodrigues. Teve os 6 f.ºs
Subsídios à Genealogia Paulistana (Regina Junqueira)
Cornélio de Arzam chegou a São Paulo em 1609, quando Martim Rodrigues já havia partido em sua bandeira mal afortunada. Foi sua sogra, Suzana Rodrigues, quem tratou de seu casamento com Elvira. Nunca conheceu o sogro. Foi várias vezes denunciado à Inquisição e em 1628 teve seus bens sequestrados, conforme o documento abaixo.
Nesta ocasião o cunhado Pedro Tenório, filho bastardo de Martim Rodrigues, (não incluído na GP), morava em sua casa.
Filhos:
1- Maria, nascida por 1613
2- Manoel, nascido por 1616: (neste site - Sesmarias vol. 01, 158) Manoel de Arzão - 1640 - f filho e neto de conquistadores, terras na cabeceira de Belchior de Borba. Casou aos 13-01-1642 na Sé de São Paulo com Maria Afonso também referida em alguns assentos paroquiais como Maria de Azevedo. Aos 06-10-1677 recebeu provisão passada na Bahia por Antonio Garcia para assumir o cargo de Capitão de Infantaria da Ordenança do Bairro de Santo Amaro, antes ocupado por Francisco Furtado porque, estando vago o posto, "convem prove-lo em pessoa de pratica da disciplina militar e experiência da guerra: tendo nós consideração ao bem que todas estas partes e qualidades concorrem, na pessoa de Monoel Rodrigues de Arzão ... (RGCSP, vol 3º, flas 277). Tiveram vários filhos entre eles:
- Suzana Rodrigues de Arzam, casada com Manoel Gonçalves Malio, filho de Baltazar Gonçalvez Malio e Domingas de Abreu, todos moradores em Santo Amaro, onde batizaram os filhos e onde faleceram, Manoel em 1720 e Suzana aos 04-05-1754, sepultada dentro da Matriz de Santo Amaro. (ACMSP, códice 4-2-34). Além dos filhos legítimos, Manoel teve alguns naturais e outros bastardos, batizados e casados em Santo Amaro, conforme os livros paroquiais.
3- Ana Rodrigues casada com Belchior de Borba (neste site - Sesmarias vol. 01, 157) Belchior de Borba - 1640 - No limite de Botura, nas cabeceiras de Tristão de Oliveira ou de Martim Rodrigues. Família “Borba Gato”, neste site
4- Suzana, nascida por 1624.
5- Brás Rodrigues de Arzão, nascido por 1626 (SAESP vol. 23º - neste site)
6- Cornélio, nascido por 1628.

CORNELIO DE ARZÃO
INVENTÁRIO NO JUIZADO DOS ÓRFÃOS
Data 30-10-1638
Local: Vila de São Paulo
Juiz: Dom Francisco Rendon de Quevedo
Inventariante: A viúva Elvira Rodrigues
SAESP, Inv e Test , vol 12, fls 27 a 67
FILHOS:
  1. Maria de 25 anos
  2. Manoel de 22 anos
  3. Ana Rodrigues casada com Belchior de Borba
  4. Suzana de 14 anos
  5. Braz de 12 anos
  6. Cornélio de 10 anos
BENS DE RAIZ:
  • Casas de dois lanços na Vila de São Paulo junto da Matriz .......25$000
  • Um lanço de casa novo que parte com Belchior de Borba..........12$000
  • Chãos com taipas novas...............................................................20$000
  • Sitio de três lanços de Taipa em Boy...........................................25$000
PROCURADOR DA VIUVA : João Paes
CURADOR Á LIDE DOS ÓRFÃOS: Antonio Vieira de Maia
MONTE MOR: 562$740
5-8-1623
Diz Braz Rodrigues de Arzão morador nesta villa que ele ficou órfão filho do defunto Cornélio de Arzão elle dito é casado com mulher e filhos e está para se mudar com casa e família para fora da vila e termo (pelo que pede a legítima de 51$114).
21-10-1684
Braz Rodrigues de Arzão declara ao Juiz Salvador Cardoso de Almeida que seu irmão Cornélio Rodrigues de Arzão falecera em Itu onde era morador e deixou filhos menores...
(pede o inventário, avaliação e leilão dos bens desses órfãos na vila de São Paulo)

INVENTÁRIO DA FAZENDA DE CORNÉLIO DE ARZÃO
MANDADO FAZER PELA INQUISIÇÂO
Vol 12, fls 71 a 127

Anno do Nascimento de Jesus Cristo de mil seissentos e vinte e oito annos ao primeiro dia do mez de abril do dito anno no termo da villa de São Paulo capitania de São Vicente partes do Brazil no termo desta vila donde chamam Piratiabae roça e fazenda de Cornélio de Arzão onde veio o Juiz ordinário da villa Francisco de Paiva trazendo comsigo a Liguel Ribeiro meirinho da Santa Inquisição por ordem e mandado do Senhor Inquisidor Luiz Pires da Veiga trazendo mais comsigo a mim Tabelião ao diante nomeado, e ao tabelião Simão Borges de Cerqueira , e sendo aqui nesta fazenda a meia noite pouco mais ou menos chegando as portas da dita casa do dito Cornélio de Arzão logo o dito meirinho Miguel Ribeiro bateu a porta da dita casa dizendo que da parte da Santa Inquisição lhe abrissem a porta a qual foi aberta pela mulher do dito Cornélio de Arzão Elvira Rodrigues e juntamente com um irmão seu por nome Pedro Rodrigues Tenório e sendo aberta a porta da dita casa logo pelo dito meirinho Miguel Ribeiro e o dito Francisco de Paiva lhe foi mandado por parte da Santa Inquisição entregasse as chaves da dita casa e de todas as caixas que tivesse e declarasse toda a fazenda que nella havia a qual disse e declarou que na dita casa em que estava e nós todos entramos não havia mais que uma fraqueira em que estavam sete frascos juntamente duas tamboladeiras de prata e três digo uma maior e outra mais pequena e três colheres de prata, e que na dita casa não havia mais gente que gente de serviço, negros da terra e que em outra casa que junta estava estavam duas caixas em que tinha algumas coisas e que fossem ver, e logo se foi ver deixando na dita casa que primeiro vimos guardas e bom recado como o caso requeria e do que dentro estava se fez inventário seguinte perante o dito juiz e meirinho e a dita Elvira Rodrigues por mão saber e assignou por ella Belchior de Borba forasteiro que ahi se achou eu Fernão Rodrigues Cordova tabelião escrevi.

(Seguem as avaliações da frasqueira, tachos, todo o tipo de ferramentas, pratos de estanho, gado, porcos, um pano cozido com 9920 em dinheiro, relicário, roupas, tecidos, 27 grãos de ouro e quatro pérolas, louça, um par de óculos, facas e facões, uma negra da Guiné e seu filho, armas, plantações de algodão, mandioca, aves, gentio da terra)
E logo no ditto mês e anno acima e atraz declarado sendo feito esse inventário ....foi dado juramento na Cruz da vara em nome dos Santos Evangelhos a mulher do preso Cornélio de Arzão a requerimento do meirinho do Santo Oficio.......
Aos dois dias do mez de Abril ...o dito Juiz Francisco de Paiva e o meirinho do Santo Oficio Miguel Ribeiro trazendo a mim tabelião nos partimos do sitio de Cornélio de Arzão atraz declarado e dahi fomos a uma casa que está na roça do dito Cornélio de Arzão para sabermos o que nella havia e achamos o abaixo declarado.
(milho, moinho, casas, ferramentas, pouco mobiliário)
(Segue avaliações das casas e seus pertences na vila e o rol dos conhecimentos, i. é. devedores)

Escripturas
  • Carta de data de sesmaria de meia légua nos matos do Bihi
  • Casas defronte à casa do Vigário
  • Umas terras em Bohi
  • Sessenta e seis braças de terras em Birapoera
  • Chãos na banda de Santo Antonio
  • Cinco braças de chãos em Santos
  • Terras em Bohi compradas a Matias de Oliveira
  • Uma légua no Covatão merim correndo para Piaçagoera
  • Um conhecimento pelo qual Miguel Gonçalves Correia que era ido ao Peru, devia 16$000 ao dito preso.
Penhoras feitas aos oficiais da Câmara do ano de 1610, referentes ao que a Câmara devia ao preso Cornélio de Arzão pelo feitio da Matriz.

Pagaram:
  • Mathias de Oliveira
  • Bento de Oliveira por seu irmão Gaspar de Oliveira por conta do inventário de Francisco da Gama
  • Catarina Dias por seu marido defunto Garcia Rodrigues
  • Manuel da Costa e Miguel Ribeiro como herdeiros de Belchior da Costa
  • Bernardo de Quadros, por ter sido oficial da Câmara em 1610
LEILÃO
(Segue o leilão de todos os bens em praça pública, exceto o ouro, prata, pérolas e moeda que foram direto para o bolso do meirinho. O meirinho também recebeu o dinheiro dos credores).






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