quarta-feira, 2 de novembro de 2016

As Expulsões


Datas mais expressivas das expulsões dos judeus da Europa.

Depois de tantas tormentas, massacres, pogroms e antecipações do grande Holocausto ocorrido em pleno século XX, não restavam muitas opções para os judeus da Europa. Perseguidos, execrados em todos os lugares onde estavam, salvo raras e honrosas exceções, entre as quais figuravam os Países Baixos, assacados pela Igreja, pelos nobres e odiados pelo povo, tendo seu patrimônio confiscado e seus bens roubados, sem respeito como grupo e como cidadãos, sem direitos civis, vilipendiados de todas as formas, sem poder professar sua religião, os judeus viviam sua via crucis.

Em 1290, após sangrentos distúrbios em que milhares de judeus foram massacrados, sua expulsão da Inglaterra se deu de uma só vez. Na França, envolvida em guerras contra a Inglaterra, havia muita divisão interna entre feudos, apanágios e senhorias eclesiásticas, o que não permitia uma atitude uniforme contra os judeus. Mas a virulência antijudaica era tão forte quanto na Inglaterra e Alemanha. Na segunda metade do século XIII, a maior parte dos judeus era encontrada entre a região central do país até as margens do Reno, num total de mais de 150 comunidades. Outras grandes concentrações ocupavam a região mediterrânea, a Provença e o Languedoc. Os grandes centros de estudos talmúdicos, bem como da poesia litúrgica, eram encontrados no Centro e no Norte. O Sul abrigava grande número de brilhantes linguistas, filósofos e cientistas, bem como de tradutores que enriqueceram a cultura do Ocidente. Durante a Primeira Cruzada, a França iniciou o processo de assaltos aos judeus, com matanças e conversões forçadas, intercalados por períodos de apaziguamento, mormente quando o rei precisava dos judeus, com seu dinheiro e conhecimento. Em 1182, após denúncias de que os judeus matavam crianças cristãs, em rituais satânicos, Filipe Augusto os expulsou, para, alguns anos depois, chama-los de volta, quando precisou de dinheiro para financiar suas campanhas e obras no reino.


Massacre de judeus durante a Primeira Cruzada.


Durante a Segunda, a Terceira e a Quarta Cruzadas, novos massacres, novas expulsões, seguidas de novos acolhimentos quando o reino precisava de dinheiro. Em 1240, os judeus foram expulsos da Bretanha; em 1289, da Gasconha; em 1290, de Anjou. No início do século XIV, o reino da França já havia crescido muito, englobando a maior parte do território francês de hoje. Após a desapropriação dos lombardos e dos Cavaleiros Templários, em 1306, foi a vez dos judeus também serem desapropriados e expulsos. Seguidas vezes, no decorrer desse século, foram expulsos e novamente aceitos, sempre no interesse da coroa, quando precisava de dinheiro. Em 1491, a Provença foi incorporada ao Reino da França, seguindo-se a expulsão dos judeus de todas as cidades da região, onde haviam estabelecido, há séculos, comunidades cultas e gloriosas. Em 1498, foi decretada a ordem de expulsão geral, após o que quase não sobraram judeus na França.


Pogrom de Hamburgo.


Dada a multiplicidade e pulverização do poder político na Alemanha, não houve aí uma expulsão em massa, apenas em determinados pontos. As expulsões foram ocorrendo sucessivamente: em Colônia em 1424, em Augsburg em 1440, em Trent em 1475, em Magdeburg em 1493, em Mecklenburg em 1492. Entre 1450 e 1500 as expulsões ocorreram em dezenas de cidades da Baviera, Suábia, Francônia e Mainz. 

A conclusão de tão nefando gesto chegou, finalmente, à Península Ibérica. Apesar de pressionada pela Igreja, a coroa espanhola manteve os judeus em seu território durante todo o período da Reconquista, já que precisava de sua valiosa contribuição financeira, bem como de seus vastos conhecimentos gerais e de sua cultura e das relações que mantinham com os governantes mouros. Em fevereiro de 1492, ano da descoberta da América, cai o último baluarte mouro, em Granada. Os Reis Católicos, Fernando de Aragão e Isabel de Castela, já não precisavam mais dos préstimos e do dinheiro dos judeus. No intuito de criar uma nação unificada política, cultural e religiosamente, não foi preciso que a Igreja pressionasse muito suas majestades para que a expulsão logo ocorresse. A Inquisição havia chegado à Espanha uma década antes, trazendo em seu rastilho ódio, sangue, pavor e queima de inocentes. Em 31 de março de 1492, é publicado o famigerado Édito de Expulsão dos judeus da Espanha, obra de Fernando de Aragão e Isabel, a Católica, marcando definitivamente a história da infâmia, num ato de intolerância radical contra um povo que só o bem havia trazido para sua pátria ibérica.



Expulsão dos judeus da Espanha, pelos Reis Católicos.


Édito de Expulsão.


Os judeus tiveram de se espalhar pelo norte da África, Oriente Médio e Turquia, onde eram bem acolhidos. Uma boa parte se dirigiu à Holanda, recém-libertada do jugo espanhol, e que iniciava uma ascensão veloz para se colocar como uma das maiores potências econômicas e militares do Ocidente. Ali havia tolerância religiosa, respeito pelos diversos cultos, convivência com o contraditório, atitudes impensáveis no mundo católico. Mais de noventa mil judeus, atravessaram a fronteira e se estabeleceram em território português, onde, inicialmente, foram bem recebidos pelo rei Manuel I, pelas mesmas razões que outros reis os aclamavam. Mal sabiam esses pobres filhos de Abrahão que, quatro anos mais tarde, em 1496, também seriam expulsos de Portugal, por imposição dos Reis Católicos, a fim de que se consumasse o casamento de sua filha Isabel, viúva, com o rei português, então solteiro. Mais uma vez a infâmia se fez presente. Era o início de uma nova Diáspora, conhecida como Diáspora dentro da Diáspora, que, mais uma vez, pulverizou os judeus pelo mundo afora.


Judeus em sua marcha pelas estradas da Espanha, após a expulsão.


Pogrom de Lisboa, 19 de abril de 1506.


Quando foram expulsos da Espanha, o rei D. Manuel I tinha esperança de poder converter os judeus que chegassem a seu território. Contava também com seus préstimos e dinheiro. O que não contava mesmo é que a comunidade judaica em Portugal não pudesse admitir a abdicação de suas crenças religiosas milenares e o que ocorreu é que ela manteve seus hábitos e costumes. Foram feitas inúmeras tentativas de “catequizar” seus súditos judeus. Na sua impossibilidade (casos isolados de conversão de judeus são relatados), ocorreu uma última grande tentativa de cristianizar a grande massa de judeus que se amontoava no porto de Lisboa, próximo do término do prazo estipulado para a conversão, tentando embarcar nos navios para poder escapar da perseguição. Essa multidão foi  “batizada” em massa, em agosto de 1497. Como todos estivessem em pé e espremidos uns contra os outros, no cais do porto de Lisboa, esse episódio ficou conhecido como o do “batismo em pé”, de triste memória.

Mesmo os convertidos (cristãos-novos) eram vistos com grande desconfiança, sofriam preconceitos de toda ordem e, logo, também eles, seriam perseguidos sob a acusação de judaizantes, isto é, de exercer o judaísmo às escondidas, no interior de suas casas, mantendo as aparências externas de cristãos. Lisboa viveu dois episódios de violentos pogroms, em 1499 e 1506, além de distúrbios e massacres no bairro judaico de Lisboa (registrados por Gil Vicente), provocados por padres fanáticos, em 1532. 

Muitos desses judeus expulsos haviam contribuído de forma decisiva para o êxito das grandes navegações portuguesas e espanholas, com seus conhecimentos, suas invenções náuticas, geográficas e astronômicas, dando assim a chance das grandes descobertas territoriais no Novo Mundo.


As grandes navegações, que tiveram participação ativa de judeus.


Milhares desses judeus se refugiaram nas ilhas portuguesas e espanholas do Oceano Atlântico, como Canárias, Cabo Verde, Madeira, São Tomé e no Arquipélago dos Açores. Daí, outros milhares embarcaram em direção ao Novo Mundo na esperança de sobrevivência, de dias melhores e liberdade de culto nessas terras tão alvissareiras. Da Holanda, muitos aportaram nas Américas, quando da fundação da Companhia das Índias Ocidentais, particularmente acompanhando a frota do príncipe Maurício de Nassau, em 1638, ao Recife, Pernambuco. Mas, algum tempo depois, o braço sanguinário da Igreja aqui chegou, na forma da Inquisição, mais uma vez faminta do dinheiro judeu e invejosa de seu enorme conhecimento e cultura. Com a expulsão dos holandeses do território brasileiro, a perseguição aos judeus continuou por mais dois séculos e meio.

Na tentativa de fugir à violência religiosa, muitos judeus portugueses se embrenharam pelo território brasileiro, aventurando-se como desbravadores e colonizadores, o que fizeram com tanta eficiência como os portugueses cristãos-velhos. O mesmo ocorria nos territórios da Coroa espanhola.

Muitos judeus desceram para o sul, para a Capitania de São Vicente, aí se estabelecendo como comerciantes, proprietários de engenhos de açúcar, construtores, desbravadores, mineradores e faiscadores. Com o surgimento das primeiras bandeiras, lá estavam esses bravos hebreus a se embrenhar pelo território tupiniquim, onde alguns se destacaram como grandes desbravadores. Entre eles, encontram-se alguns pioneiros na descoberta do ouro nas Minas Gerais.

Pode se dizer que estes aventureiros hebreus tiveram uma participação robusta no alargamento do território brasileiro, logo tornando o traçado do Tratado de Tordesilhas uma letra morta. Assim, deram uma contribuição enorme para a criação das raízes do Brasil contemporâneo, incluindo sua cultura, conhecimento e costumes.

As Conversões Forçadas


Lasar Segall (1891-1957). Pogrom (1937).
Óleo sobre tela (1,84z1,50 cm). Museu Lasar Segall, São Paulo, Brasil.


A situação dos judeus na Europa ocidental e, em particular, na Península Ibérica chegou a tal ponto que, ou haveria um genocídio de proporções gigantescas (o que faria do cristianismo o maior carrasco e assassino em massa da história), ou os judeus deveriam se converter ao cristianismo e, assim, teriam suas vidas poupadas, mas seus bens confiscados. Realmente, houve milhares de conversões de judeus para o cristianismo, bem como houve milhares deles que fugiram para países em que a liberdade religiosa estava presente, como a Turquia, o norte da África, o Egito e até mesmo a Palestina, onde a ordem de exclusão estrita, estabelecida pelo Império Romano, já havia sido esquecida há muitos séculos.

Contribuiu muito para esse clima persecutório uma série de ardorosos sermões proferidos por arcebispos, bispos, monges e sacerdotes nos mais diversos lugares. Atendo-nos somente à Península Ibérica, podemos citar, de início, os sermões do arcebispo Fernán Martinez, em Sevilha, em 4 de junho de 1391. Incitada pelas palavras virulentas e venenosas anti-judaicas, o populacho atacou os judeus com exacerbada violência. A revolta se alastrou por todo o reino de Castela, acarretando motins e matanças. Cidades e aldeias, uma após outra, foram sendo dominadas pela fúria ensandecida. Judeus, desesperados, buscavam socorro nas igrejas cristãs pedindo o batismo. Outros fugiam para países desconhecidos, a pé, pelas estradas atulhadas, dia e noite, por carroças que carregavam os poucos pertences que podiam levar. Uma imagem digna da descrição do Inferno de Dante!



Maestro del Grifo. São Vicente Ferrer pregando aos judeus. Óleo sobre tela. 
Museu de Bellas Artes, Valência. (Extraído de Faiguenboin e cols., 2002).


Muitos judeus tentaram compreender o que estava acontecendo nas páginas da Bíblia, sem encontrar a razão de tal sofrimento de todo um povo. Muitos preferiram, então, culpar-se, avaliando que sua desgraça era decorrente de um “castigo divino”, uma punição de Deus aos pecados do povo de Israel, nos moldes do episódio de Sodoma e Gomorra, em que pese não haver nenhuma semelhança causal entre os dois acontecimentos (Faiguenboin e cols, 2002). 

Por outro lado, os governos também levavam um grande prejuízo com essa 
loucura coletiva. Eles deixavam de receber os empréstimos e ajudas financeiras de todo o tipo, para financiar suas guerras externas, seus castelos, seu fausto e elevadas despesas da corte. O que ocorria era deletério para as finanças do reino, para os comerciantes e cobradores de impostos. Mas, a palavra final estava com a Igreja e a questão era religiosa e não laica. 



Ilustração representando um debate sobre fé entre católicos e judeus.
 (Extraído de Faiguenboin e cols., 2002).


Dada a grande religiosidade cristã na Península Ibérica, a hostilidade da Igreja para com outras minorias religiosas, entre os séculos XIII e XVI, onde as controvérsias sobre dogmas não eram toleradas, onde o contraditório não era admitido em hipótese alguma, pode se entender a situação dos governantes. Muitos reis foram contra essas atrocidades, mas, em contrapartida, muitos outros eram favoráveis e até incentivadores das mesmas. Nem todas as comunidades judaicas organizadas foram levadas ao desespero. Muitos líderes judaicos queriam a plena reconstrução de sua vida religiosa. Entretanto, os tempos eram obscuros demais e a perspectiva de solução para o impasse desaparecia no horizonte.


Gravura representando os judeus como usurários, atividades proibida aos cristãos.

Durante o reinado de Jaime I de Aragão, os ataques antijudaicos aumentaram consideravelmente. Em 1263, ele autorizou o célebre debate, em Barcelona, entre o judeu convertido Pablo Christiani e o rabino e sábio Nachmánides. Segundo todos os relatos de quem presenciou o debate, o segundo, com seus sólidos conhecimentos e fundamentos religiosos, venceu a pugna. Como recompensa, o rei ordenou que fosse preso, mas, antes que o inimigo pudesse agarrá-lo, ele já tinha fugido do país, com destino à Palestina. Isso recrudesceu a ação de monges, inconformados, que exigiam a imediata conversão ao cristianismo de todos os judeus. Tal demanda associou-se às calúnias, cada vez mais presentes, como acusações de crimes rituais (sacrificar crianças cristãs a fim de utilizar o sangue em rituais religiosos), profanação de hóstias, completo desrespeito aos sacramentos da Igreja, envenenamento das águas de poços, além de serem os culpados pela Peste Negra. Entre 1412 e 1414, as comunidades judaicas da Espanha passaram por novos sofrimentos. Nesse período, um grupo de rabinos foi convidado a debater, na cidade de Tortosa, com autoridades da Igreja, questões religiosas, entre as quais as diferenças entre o judaísmo e o cristianismo, quem era o Verus Israel (discussão sobre a relação entre os judeus e os cristãos durante o período final do Império Romano, 135-425 a.D., na qual os cristãos, induzidos por Paulo de Tarso, passavam a considerar Abraão o verdadeiro profeta do cristianismo e não do judaísmo), a vinda do Messias, sua essência e suas ações, os milagres, a salvação, o Reino dos Céus e muito mais (Faiguenboin e cols., 2002). Lá chegando, os rabinos descobriram que iriam debater com judeus apóstatas (que haviam abandonado o judaísmo pelo cristianismo). A hostilidade antijudaica chegou a um ponto que, logo, ocorreu o pogrom contra os judeus convertidos (cristãos-novos) de Toledo, em 1467. Agravou a situação a questão dos falsos conversos: judeus que se convertiam ao cristianismo apenas como fachada, para sua própria sobrevivência, mas mantinham secretamente sua crença e rituais judaicos.


Auto de Fé na Espanha. Ca. 1495.


O século XV foi marcado por intensas hostilidades contra os falsos conversos ibéricos, acusados de judaizar (professar secretamente o judaísmo), profanar sacramentos e desobedecer aos cânones dos ensinamentos da Igreja. Instigados pelo clero e as ordens monásticas dos franciscanos e dominicanos, levados por um fanatismo extremado, aconselharam aos reis católicos, Fernando de Aragão e Isabel de Castela, o estabelecimento da Inquisição na Espanha.
Para complicar a situação, surge uma enxurrada de obras literárias contra todo tipo de heresia e contra as bruxas e que foram publicadas na Europa Central, Alemanha e França. O primeiro desses textos mais significativos foi a obra Formicarius, de Joahannes Nider, em 1435/37. Nele são ensinados métodos (ainda primitivos) de se identificar as bruxas no seio da população e leva-las a julgamento. Mas, a obra final, a mais odiosa publicação já feita pelo ser humano para identificação das bruxas, foi o Malleus Maleficarum (O Martelo das Feiticeiras), de autoria dos monges dominicanos e inquisidores austríacos Heinrich Kramer e Jakob Sprenger, este último deão da Universidade de Colônia, por solicitação do papa Inocêncio VIII. Esta obra, considerada como o mais terrível livro já escrito por um ser humano, ataca principalmente as mulheres (alguns poucos homens foram incluídos), suspeitas de bruxaria. É um tratado de horrores sobre a misoginia. Ensina como fazer para se obter a confissão da suposta bruxa (principalmente através da tortura), ensinando os métodos de torturas conhecidos até então, como levá-las à confissão de seus “crimes”, como julgá-las e condená-las e, finalmente, entregá-las ao poder laico para a execução da sentença, geralmente a fogueira. A associação com os judeus foi imediata, já que eles também eram acusados de heresia, bruxaria e pacto com o diabo. Acredita-se que essa obra hedionda tenha contribuído para levar algo em torno de cem mil mulheres para a tortura e a morte, sob a acusação de “copularem com o demônio” (prefácio de Rose Marie Muraro à obra Malleus Maleficarum, Kramer e Sprenger, Rio de Janeiro, 2007). Apesar de ter sido incluída no Index Proibitorum da Igreja Católica, durante quase quatro séculos foi o manual extra-oficial da Inquisição.


Edição do Malleus Maleficarum, de 1657. 


A questão dos cristãos-novos também foi muito debatida na Península Ibérica durante os séculos XV e XVI. Pero Sarmento, Marquillos de Mazarambroz, D. Alonso de Cartagena, Dr. Francisco de Toledo, Graciano, o bispo Lopes Barrientos, Garcia de Resende, Gil Vicente, João de Barros, Francisco Machado, Amador Arrais e o anônimo Libro de Alboraique, foram alguns desses autores e obras a alertar para o perigo de que os cristãos-novos representavam para a sociedade cristã (Faiguenboin e cols, 2002). A teoria vigente era que o povo cristão recebia dos judeus e dos conversos um tipo de castigo divino. Caberia, então, à sociedade encontrar soluções práticas para resolver a “questão judaica”, como a expulsão do país, o isolamento a perseguição e a morte. Verdadeiro prenúncio da “solução final”, executada pelos nazistas no século XX.


O Martelo das Feiticeiras (Malleus Maleficarum),
com excelente introdução histórica de Rose Marie Muraro.
Rio de Janeiro. Editora Rosa dos Ventos, 2007.



Para esses autores, a sociedade ibérica estava enferma e os cristãos-novos eram um elemento de desagregação social. Também descreviam, em textos antijudaicos, essa enfermidade em termos religiosos e teológicos aqui enumerados: não existência da crença cristã, inexistência de qualquer culpa, envolvimento em seus erros, crença na sua verdade sagrada, obediência à doutrina judaica e o afrontamento do sagrado cristão. Ofereciam soluções pouco viáveis e nenhuma que realmente resolvesse a questão do convívio entre duas religiões, tão próximas entre si, como a do relacionamento entre cristãos-velhos (população cristã cuja conversão ao cristianismo remontava a uma época presuntivamente anterior à presença dos judeus) e cristãos-novos (termo usado para designar os judeus da Península Ibérica convertidos ao catolicismo antes de 1492, na Espanha, e antes de 1496, em Portugal). Isso revela o quanto foram incapazes os povos ibéricos de conciliar o problema. Ficou muito evidente, entretanto, que esses intelectuais queriam apenas polemizar e piorar a situação de convivência, gerando um debate público acerca dos cristãos-novos, gerando um enigma, até hoje pouco decifrado (Faiguenboin e cols., 2002). Estava preparado o caminho para a expulsão.

A Inquisição e os Judeus




A Europa passava por um turbulento período no início do século XIII. Em 1208, a quarta Cruzada continuava sua incursão de horror e violência inauditos à Terra Santa e o Reino Franco de Jerusalém se encontrava ameaçado, já quase encurralado, pelos muçulmanos. Nesse ano terrível, o papa Inocêncio III desencadeia outra Cruzada, desta vez, contra povos cristãos, os cátaros, que viviam no sul da França, em área mediterrânea. Esta Cruzada ficou conhecida como “albigense”, já que um dos primeiros centros de difusão dessa religião, então considerada uma heresia pelos católicos, era a cidade francesa de Albi, não muito distante do Mediterrâneo. A palavra cátaros significava “purificados” ou “aperfeiçoados” e, entre outros princípios por eles praticados, estavam a não obediência à hierarquia de Roma, a crítica ao fausto e à corrupção que grassavam entre o clero e a cúpula da Igreja, a volta aos princípios do cristianismo primitivo, a crença em um único Deus e a não aceitação da divindade de Jesus, do Espírito Santo e o questionamento da santidade da Virgem Maria e dos demais santos. Além disso, os seus sacerdotes podiam se casar, ou mesmo ter várias mulheres e famílias, desde que as pudessem manter. O ambiente estava extremamente pesado, a hierarquia católica rancorosa e desejosa de obter compensações financeiras pelos seus fiascos nas Cruzadas, que haviam levado a consideráveis perdas humanas e monetárias. Somando-se a isso, havia a já quase milenar rixa com os judeus, que, por terem sido bem sucedidos em suas atividades mercantis e se destacado em todas as áreas culturais, intelectuais e financeiras do Mundo Ocidental, despertaram a inveja e a cobiça por parte da Cristandade, mergulhada na pobreza, ignorância e analfabetismo. Estava preparado o caldeirão para os inúmeros pogroms e holocaustos que se seguiriam no decorrer dos próximos três séculos.




Regiões da Europa ocidental onde os cátaros tiveram grande presença.



Região cátara do sul da França, palco da sangrenta Cruzada fratricida.



A ordem de Inocêncio III foi clara e incisiva: “Damos a estrita ordem que, por todos os meios, destruam todas essas heresias... Se necessário, instruam os príncipes e o povo a suprimi-los pela espada” (Borger, 2002; pág. 95). A ordem foi seguida ao pé da letra. Em 1209, na cidade de Béziers, em um único dia, foram exterminados 20 mil homens, mulheres, crianças e idosos, e, junto a eles, 200 judeus.



Carcassonne, próxima a Béziers, foi a última fortaleza cátara a cair.



Cátaros sendo caçados e tirados da fortaleza de Carcassonne.



As diferenças na interpretação da Bíblia também contribuíram para o sacrifício dos judeus. Desde 1199, Inocêncio III estava preocupado com a laicização e declarou que as Escrituras eram profundas demais para serem compreendidas sem um guia clerical. Isso terminou por envolver a interpretação do Talmud (livro que contém a Lei e as tradições judaicas, compilados pelos doutores hebreus) pelos rabinos, o que não levou muito para ser considerado também uma heresia. Por séculos, o judaísmo foi respeitado como uma religião co-irmã do cristianismo e seus fiéis não eram molestados por professar essa religião. Mas, o clima havia mudado e nuvens negras assomavam no horizonte. O Talmud passou a ser considerado um conjunto de “superstições” e “blasfêmias”. Dissenções internas entre os judeus contribuíram para agravar a situação. Alguns rabinos consideravam a obra de Maimônides como um desvio para as novas gerações judaicas e seus escritos terminaram por ser excomungados de muitas dessas comunidades. Alguns rabinos chegaram mesmo a denunciar às autoridades católicas a obra de Maimônides, intitulada “O Guia Para os Perplexos”, como sendo uma ameaça também ao cristianismo. O Talmud foi condenado pelo Vaticano e os dominicanos, que haviam incitado o início das perseguições aos hereges, foram encarregados pelo papa de destruir o Talmud, pela fogueira. Isso deu origem a uma das mais nefandas campanhas na história, que deixaria seguidores até os nossos dias: a queima de livros e textos dos quais certos líderes e seguidores discordam. Em função disso, o grande poeta romântico alemão, Heinrich Heine, em 1824, disse: “Aqueles que queimam livros, acabam cedo ou tarde por queimar homens”.

Emblema da Inquisição.





Esse fenômeno ocorria em toda a Europa Ocidental. Em Paris, em 1236, Nicolau Donin, que havia sido discípulo do rabi Jehiel ben José, em discordância com a doutrina talmúdica, foi excomungado do judaísmo pelos seus mestres (também entre eles havia essa prática). Como vingança, Donin se converteu ao cristianimo e ingressou na ordem dos franciscanos. Logo em seguida, apresentou ao papa Gregório IX uma lista com 35 acusações contra o Talmud, tais como: supostos antropomorfismos (heresia surgida na Síria, no século IV a.D., que atribuia a Deus corpo humano, baseando-se em que o homem havia sido feito materialmente à sua imagem e semelhança), obscenidades, blasfêmias contra Jesus e Maria, incitação ao ódio contra o cristianismo, suposta alegação, pelos judeus, da prioridade da lei talmúdica sobre a bíblica e, não menos grave que as demais, a suposta barreira que o Talmud erguia contra os esforços de conversão de judeus ao cristianismo (Borger, 2002; pág. 98). Em 1242, em Paris, o Talmud foi declarado “culpado” e seu destino seria a fogueira. Vinte e quatro carroças, carregando algo em torno de doze mil livros, foram queimados em praça pública. Pode-se avaliar o prejuízo cultural imposto aos judeus baseando-e em tal volume de livros destruidos, dois séculos antes da invenção da imprensa. Em Montpellier, poucos anos depois, outra grande quantidade de exemplares do Talmud foi queimada. Bulas papais dos anos de 1244, 1260, 1320, 1409 continuaram a condenar a “heresia” do Talmud (Borger, 2002; pág. 90). Essa prática atingiu o êxtase da loucura em pleno século XX quando, em 10 de março de 1933 os nazistas queimaram toneladas de livros de autores judeus. Tal prática continua a afligir a humanidade até os dias atuais.





Queima do Talmud, coordenada pelos padres dominicanos.



Estas queimas foram o prenúncio do pior, que estava por vir. Entre 1208 e 1290 milhares de judeus foram massacrados na Alemanha. Em 1321 foi a vez da França adotar essas práticas odiosas. Entre 1336 e 1339 um número enorme (e ainda desconhecido) de judeus foram massacrados na Alsácia e Francônia, sob o pretexto de vingar a morte de Jesus Cristo e após acusações de que judeus profanavam hóstias consagradas. Na Inglaterra, o anti-semitismo estava em pleno andamento, nesse período. Os judeus, como em todos os demais países, exerciam as tradicionais atividades mercantis, comércio exterior, importação-exportação, além das atividades liberais propiciadas por sua formação educacional rigorosa e contínua. Além do mais, emprestavam dinheiro à coroa, à corte e ao povo em geral. Essa atividade era proibida aos cristãos na Idade Média e isso era sempre um fator gerador de inveja e rancor. Os judeus haviam sempre tido excelentes relações com a monarquia e a nobresa inglesas. As primeiras explosões de ira popular contra os judeus se deram nos dias das cerimônias de posse do rei Ricardo I, em 1180. No dia 16 de março deste ano, após o massacre dos representantes judeus da comunidade judaica inglesa, que haviam se deslocado até Londres para as cerimônias da posse real, outros 150 cidadãos, homens e mulheres judeus, se refugiaram na Clifford Tower, da cidade de York, onde foram sitiados e, depois, massacrados, para não renunciar à sua fé, condição imposta pela turba ensandecida.



As bruxas. Xilogravura. Hans Baldung (1484-1545), circa 1510. 
Os judeus logo foram associados à bruxaria, no século XIII.


A loucura homicida anti-judaica recrudesceu com a chegada da Peste Negra. Os judeus, entre outras razões, foram acusados de espalhar a Peste, para destruir o Ocidente cristão. Levantou suspeita, entre os cristãos, o fato dessa moléstia atingir muito menos judeus que os cristãos, em função dos melhores hábitos de higiene daqueles, que se banhavam com grande regularidade, usavam latrinas privadas (que só foram introduzidas no Ocidente quando os Cruzados voltaram da Terra Santa e trouxeram os hábitos dos habitantes dessa região), cuidavam muito bem da limpeza de suas roupas e não se sentavam à mesa para as refeições sem lavar as mãos. Mas, na realidade, a Peste atingiu, e muito, a população judaica na Europa e foram milhares os hebreus mortos, a ponto dos cemitérios judaicos não terem mais espaço para os sepultamentos. A cegueira criminosa persistiu e, depois que várias das suspeitas causais para a doença terem sido eliminadas (conjunturas astrológicas, castigo divino, obra do diabo, os mendigos, os monges e os leprosos), chegou-se à negra conclusão de que eram os judeus os responsáveis pela tragédia.  Uma encenação, desenrolada na cidade de Chillon, próxima ao Lago de Genebra, levou ao interrogatório de inúmeros judeus. Muitos “confessaram”, sob tortura, um plano de destruir o mundo cristão e que havia sete anos eles conheciam uma conspiração judaica internacional, iniciada em Toledo, Espanha, para sua concretização. Arrancaram, também sob tortura, do médico judeu Balavigny a confirmação de que o ar havia sido infectado com veneno extraído do basilisco (uma lenda que remonta à Antiquidade que representa um animal em forma de lagarto ou serpente com cabeça de homem, galo ou dragão). Baseados nessas “provas” e “confissões”, centenas de judeus foram queimados (Borger, 2002; pág. 101). 


As  três bruxas. Desenho. Hans Baldung, 1513.



O beijo da vergonha. Desenho. Ulrich Molitor (1442-1507), circa 1500. 
A adoração ao diabo foi uma das acusações imputadas aos judeus,
a partir do século XIII até o século XVI.


Os judeus foram demonizados, com inúmeras representações pictóricas satânicas (que duraram até o século XVIII), foram associados à bruxaria (as mulheres cristãs mais velhas também foram alvo dessa ira tresloucada, já que, pela sua sabedoria e experiência, concorriam com as atividades “médicas” e de parteiras exercidas por inúmeros sacerdotes e, porisso mesmo, vistas como rivais) e estigmatizados como compactuados com o diabo. Incontáveis cerimônias de cremação de seres vivos inocentes foram testemunhadas pela população crédula do Ocidente europeu durante quase quatro séculos. Sem dúvida alguma, uma das mais negras páginas da História Universal.


Warlock cavalgando para o Sabbath. Desenho. Ulrich Molitor, s/d.



O absurdo foi tamanho, que o próprio papa, na época Clemente VI, teve que fazer um pronunciamento, em forma de bula, na qual dizia que, tendo em vista o fato de a peste ter atingido diversas partes do mundo, e incluído entre suas vítimas os próprios judeus, e atingido povos onde não havia judeus, como a Inglaterra (os judeus haviam sido expulsos de lá em 1290), essa doença era um desígnio de Deus. Seria, então, absolutamente impensável que os judeus tivessem tido a capacidade de tamanho desastre (Borger, 2002; pág. 101). Entretanto, essa bula papal não teve qualquer resultado. Nem as intervenções de reis e imperadores a favor dos judeus, teve qualquer efeito positivo em seu benefício. Diga-se de passagem, estes reis e imperadores na Europa ocidental conviviam bem com os judeus, já que deles dependiam para financiar suas campanhas de guerras (nas Cruzadas e nas campanhas contra seus próprios vizinhos cristãos, para conquista e anexação de territórios), construção de palácios e outras edificações de importância para seus países.



Queima de judeus, identificados pelo círculo amarelo colocados em suas vestes.

Borger (2002; pág. 102), em seu dramático relato da verdadeira história que ocorreu em pleno mundo “civilizado” e cristão (o que é confirmado por inúmeras outras fontes insuspeitas, como o maior historiador português, Alexandre Herculano (1876), e o maior historiador não-judeu da história do povo hebreu na Península Ibérica, Amador de Los Rios (1876), nos diz textualmente:

Não faltaram cidades em que os judeus foram mortos antes da peste chegar; não faltaram regiões em que nem um único judeu sequer vivesse, porém todos sabiam que eles eram os culpados. Das covas da peste negra surge o estereótipo de sua perversa caricatura. Artistas representam sua maldita cegueira em esculturas adornando as mais belas catedrais e em pinturas que iluminam preciosos manuscritos; poetas o denunciam em trovas e baladas. Párocos semanalmente o arrasam dos púlpitos; literatos o arrastam aos palcos nos Mistérios da Paixão: ele é baixo, gordo, narigudo, tem garras, cornos, rabo e cheira a enxofre; ele é um usurário, mata crianças, profana hóstias, envenena poços e exala uma mágica sexualidade, fatal para as donzelas cristãs: é o Diabo encarnado no judeu deicida. E para que todos se cuidem, ele está marcado com o distintivo amarelo.


    


 Técnicas de interrogatórios utilizadas pela Inquisição.   


Estava armado o palco para os inúmeros pogroms e os diversos holocaustos desencadeados em toda a Europa, incluindo, posteriormente, a Rússia dos séculos XIX e XX. Os mais terríveis de todos, porém inspirados nesses episódios aqui relatados, da Idade Média, foram os da Alemanha nazista, em pleno século XX, crimes sucessivos contra a Humanidade, de proporções jamais vistas na história. Pogrom é uma palavra russa que significa ataque violento e maciço a pessoas, com a destruição simultânea do seu ambiente (casas, negócios, centros religiosos). Pode ser utilizado para outras minorias étnicas e/ou religiosas, como os protestantes (em países católicos), eslavos (em países germânicos), mas se aplica preponderantemente aos judeus europeus. Episódios para nunca mais serem esquecidos por qualquer ser humano! Estava armado também o palco para a expulsões!

A Reconquista


Califado Al-Andalus. Século X.


Havia uma grande insatisfação na Península Ibérica com o tipo de governo desenvolvido pelos muçulmanos, que abusava da arrogância, do poder exacerbado de seus líderes e pelas disputas e lutas internas fratricidas. A maioria dos judeus morava na região de Al-Andaluz, mas progressivamente fugia e buscava refúgio na região norte, onde os cristãos detinham o poder. Até então, havia poucos judeus em territórios cristãos e ocorreu incremento na fuga dos judeus para o norte, entre os séculos X e XI.




No século X começou uma lenta, mas progressiva, perda de territórios mouros para os cristãos. Muitos judeus passaram a colaborar com os cristãos em sua tentativa de reconquistar o território, anteriormente visigodo e perdido para os mouros. O papa Alexandre II aconselhou os bispos a respeitar a vida dos judeus. No início dessa migração judaica, surgiram disposições cristãs no sentido de proteger judeus no Condado de Barcelona. Entre os mouros, surgiu um sentimento de revanche, com inúmeros massacres de judeus colaboracionistas dos cristãos.


A Reconquista de Al-Andalus, em diferentes períodos.


O rei de Castela Alfonso VI iniciou uma política favorável aos judeus o que os levou a cargos administrativos do reino. Na batalha de Sagrajas, os judeus combateram ao lado do rei de Castela. No reino de Aragão existem relatos de judeus que eram contratados para educar membros da família real. Sucessivamente, foram caindo cidades ao norte do território de Al-Andaluz. Os almorávidas, fanáticos e mais radicais, do norte da África, invadiram Al-Andaluz e destruíram o Império Omíada, numa luta fratricida. Em 1085, após longo e penoso cerco, que envolveu a destruição dos campos férteis das proximidades e o surgimento da fome que se alastrou entre os mouros, caiu Toledo, a cidade mais importante até então conquistada. Logo, Alfonso VI estabeleceu aí a capital do reino de Castela. Toledo transformou-se no polo de três culturas e três religiões: a cristã, a muçulmana e a judaica. A partir de 1125 começa a funcionar a chamada Escola de Tradutores, que contava com importantes intelectuais judeus. Eles traduziam obras do árabe para o romance (mistura de hebraico com latim e a língua local) e logo se deu o encontro entre a cultura clássica e o pensamento cristão, quando foi traduzida a obra de Aristóteles. Praticamente, todo o conhecimento humano da época foi conservado e transmitido por sábios judeus.



Rei Alfonso VI, de Castela.


O maior de todos os nomes judeus, do período, foi Moisés Maimônides (Moshe ben Maimon), também conhecido como Rambam. Filósofo, religioso, codificador rabínico e médico, tornou-se uma figura fulgurante no universo da cultura medieval. Nascido em Córdoba, em 1135, foi expulso pelos mouros, após estes terem recapturado (por pouco tempo) a cidade de Córdoba. Após doze anos de peregrinação pelo sul da Península, fugiu, com sua família para Fez, no Marrocos, e, de lá, dirigiu-se a Fostat, então capital do Egito. Em todos os lugares onde viveu exerceu com brilho seus conhecimentos de liderança e administração, granjeando fama internacional. Profundo conhecedor da Torá, codificou os 13 princípios fundamentais do judaísmo. Morreu, em 1204, em Fostat e foi sepultado em Tiberíades, na atual Israel.


Maimônides



Mesmo assim, foi uma época de insegurança para os judeus. Eles eram considerados propriedade do rei e os impostos que pagavam eram revertidos para a coroa. Como a luta contra os mouros se intensificasse, os reis cristãos utilizavam o dinheiro dos judeus para financiar suas campanhas bélicas. No final do século XII, ocorrem saques e matanças em algumas juderias, como as de Toledo e Leão. O IV Concílio de Latrão, sob o comando do papa Inocêncio III, impõe aos judeus o uso de distintivos especiais na roupa para que pudessem ser distinguidos dos cristãos, mas o rei Fernando III, necessitado do dinheiro dos judeus, conseguiu tornar sem efeito tal medida.


IV Concílio de Latrão. O papa Inocêncio III preside a última sessão do 
IV Concílio de Latrão em 30 de novembro de 1215, quando
foram reforçadas as restrições aos judeus.


Casa de Maimonides, em Fez, Marrocos.


Os reis do século XIII, em geral, foram favoráveis aos judeus, mas a pressão da Igreja, que almejava sua conversão, foi de tal ordem que se estabeleceu, em Aragão, o Tribunal da Inquisição. Após a conquista de Mallorca e Valência, Jaime I concedeu aos judeus benefícios e propriedades, bem como privilégios para que exercessem seus ofícios. Essa relação entre os judeus e os reis podia ser interpretada como uma troca de favores: eles prestavam serviço, mantinham a lealdade e supriam os reis com dinheiro e, recebiam, de volta, proteção e autonomia. Os judeus eram explorados e não podiam reclamar. Mas, os nobres e o populacho se rebelavam e se amotinavam ameaçando e matando judeus. 


Judeu. Vasco Fernandes, primeira metade do século XVI.
Óleo sobre madeira. Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa.
Retrato de um judeu pobre, um dos poucos que
sobreviveram ao apagamento da imagem judaica em Portugal.


A Igreja acusava os judeus de deicídio, pela morte de Jesus Cristo, e não se acanhava em empregar todos os meios ao seu alcance para conseguir sua conversão. Foi quando teve lugar os enfrentamentos teológicos de Barcelona entre o converso Pablo Cristiano e o grande filósofo judeu Nahmánides, em 1252, debates que persistiriam cento e cinquenta anos mais tarde em Tortosa. 

O rei Alfonso X, o sábio, rodeou-se de intelectuais judeus, já que falavam e escreviam o árabe, conheciam esta cultura e mentalidade, além de conhecerem bem suas áreas urbanas, conhecimentos estratégicos para o rei. Entretanto, nas Cortes de Valladolid e Sevilha, surgem elementos legislativos discriminatórios para com os judeus. Os empresários e almoxarifes judeus de Alfonso X foram acusados de traição e infidelidade e sua condenação trouxe para os cofres do reino uma fabulosa multa de 12 mil maravedis, a moeda da Península, na época.


Alfonso X, o Sábio.


No século XIII, os diversos reinos cristãos da Península passam por grandes mudanças, o que alterou o aparato governamental e administrativo, que, mais tarde, exerceu grande influência no mundo moderno. Apesar dos judeus terem contribuído para esse progresso, eles viram levantar-se contra si um clima insuportável de ódio, que tinha raízes profundas na Europa ocidental. O Odium Theologicum (argumentação usada pela Igreja Católica para combater o judaísmo, que era visto como concorrente, para cortar os laços que ligavam as duas religiões no início do cristianismo, ódio que gerou o antissemitismo), surgiu com força total e se tornou ameaçador e terrível.
Em 1212 ocorre a sangrenta batalha de Las Navas de Tolosa, onde o futuro da Península tornou-se mais claro. O islamismo enfraquecido, deixava espaços vitais para os cristãos. Isso também foi determinante para o futuro dos judeus.


Batalha de Las Navas de Tolosa. F.P. Van Halen. Século XIX. Óleo sobre tela.
Palácio do Senado, Madrid.


Em 1313, o Sínodo de Zamora, impôs a opinião de setores mais radicais da Igreja, ressuscitando as prescrições do Concílio de Latrão e proibindo os judeus de serem médicos de cristãos. Em 1348 surge a Peste Negra, o que aumentou o ódio antissemita. Os judeus são acusados falsamente de sua propagação. Após uma luta fratricida entre Enrique de Trastámara e seu irmão Pedro I, graves consequências advieram para o reino, principalmente para os judeus sefaradis o que contribuiu para a efervescência como numa panela de pressão. Isso desembocou nas matanças de 1391, em que ocorreu o primeiro genocídio antijudaico.


Peste Negra. Ilustração do século XIV. Doentes recebendo as bênçãos de um clérigo.


Os judeus haviam sido, por séculos, os encarregados de recolher tributos para o tesouro real. Sua proximidade com o rei e os nobres, bem como dos prelados da Igreja, era de tal ordem, que pode ser compreendido o vazio surgido no século seguinte, com sua expulsão da Península. Suas posições eram difíceis de serem mantidas, pois, apesar de serem indispensáveis para a classe alta, eram vistos como exploradores pela classe baixa, o que atraía o seu ódio. Isso foi facilmente aproveitado pelo clero para desencadear perseguições antissemitas. Mesmo com a defesa dos judeus feitas pelos reis, que viam sua importância para a economia estatal (até Fernando de Aragão, o Rei Católico, reconhecia isso, pois também corria em suas veias sangue judeu), não foi possível conter a avalanche de acontecimentos que culminou com sua expulsão da Península. 


Judeus queimados vivos, em decorrência da crença
de que eles transmitiram a Peste Negra.


Com o advento do século XV, a perseguição aos judeus assumiu traços de ferocidade e os reis se tornaram impotentes para detê-la, pois sua popularidade estava em risco. A nobreza foi, progressivamente, se emparelhando economicamente com os judeus, enfraquecendo sua posição.




Abraham Ortelius.
Antuérpia, 1570. 
Considerado o primeiro atlas moderno, fruto das descobertas
lusas e hispânicas dos séculos XV e XVI.


Apesar de tudo, os judeus sefaradis abriram, dentro do judaísmo, caminhos novos em áreas de conhecimento filosófico e místico. Avançaram na interpretação de textos sagrados, entrando também em áreas do conhecimento que se ampliava no período, desde a exegese bíblica do direito até a cartografia náutica, desde a cosmologia até a astrologia, desde a alquimia até a medicina e matemática. Isso, sem dúvida, contribuiu para que a Espanha e Portugal se tornassem as potências marítimas que foram, entre 1450 e 1500.