Google+ Followers

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Carlos Cunha Corrêa - A Serra da Saudade - 2a. Parte - Capítulo VI



 VISTA DAS SERRAS EM CEDRO DO ABAETE
Serra da Saudade, vista do Cedro de Abaeté.
Foto: Luiza Alves.


Muitas são as ramificações da Canastra. Delas, a primeira no sentido Noroeste, é a que perlonga o Rio Indaiá sob as denominações de Serra da Marcela, da SAUDADE, do Indaiá, do Tosta, do Tigre, etc. Informações seguras sobre as origens dessas denominações não as há, ou não as consegui. Sobre a Serra da Saudade, por exemplo, correm lendas várias, de que não encontrei certidão de batismo – são filhas naturais, sem genealogia. A que me parece mais conforme aos acontecimentos do sertão é a que vai em seguida.
_______________
Foi quando o Conde de Assumar, por seus dragões, caçava feroz a juventude pitanguiense, adita ao régulo vencido Domingos Rodrigues do Prado, para engajá-la à milícia do Rio de Janeiro, limpando de revoltosos aquelas lavras. Inicia-se então o êxodo de pitanguienses para o sertão do planalto central, cujas riquezas minerais começavam a se revelar. Um grupo de jovens enamorados (entre eles estariam Domingos de Brito, Antônio Mendes da Silva, Romão Antônio de Aguiar e Fulano Brandão) apresta a jornada para a emigração: cargueiro e baús de roupas, trens de cozinha, munições de boca e de armas: - posto que este exórdio assim comece, toando a pugnas sangrentas, a história é antes de amores.

Noite de apreensões e de sustos, de tristeza e de prantos, de despedidas e abraços estremecidos, de troca de juras e promessas. E tudo ali andava em pancas. Parafraseando às avessas o herói manchego, partem os cavaleiros da triste figura caminho de exílio, fugindo às algemas do Conde. Maior inimigo que o conde, porém levavam na garupa dos rocins – o menino de Vênus. Bem que isto lhes custasse, haviam que se exilar ou para o sertão ou para o Rio de Janeiro. Transposto o maciço de Bom Despacho, vadeado o S. Francisco, varada planície campinosa, galgam imponente Serra, de cuja eminência o olhar abarca o mais belo e vasto cenário que ainda haviam contemplado. Descavalgam e, volvendo vistas para a amplidão ondeada do chapadão, percorrido, distinguem na orla azul do horizonte o perfil longínquo e esbatido da Serra do Pitangui. Já trazendo os corações devorados de amarguras, a lembrança de suas eleitas, a recordação dos dias vividos em doces idílios – tudo lhes chumba os pés no viso da montanha.

Julgando-se a salvo das perseguições, que até lá não chegariam, assentam de ali permanecer esperando melhores dias. Levantam choças, fazem batidas pela mataria caçando, pescando e colhendo frutos silvestres. Numa dessas sortidas sucedeu que capturassem uma cumbatã, desgarrada de alguma taba por ali existente. A cativa facilmente se afeiçoa a um dos mancebos, e com dedicação trabalha para eles. Isto não obstante, lá curtiam o fastio da solidão, certo que o amor, como a fome, é cruelmente imperioso e os convidava a pensar continuamente nas suas Galatéias.
Passam-se os dias e com eles a nostalgia cresce. Parece até que por lá andava também Bastos Tigre (noutra encarnação, está visto), quando rimou:

“Saudade, palavra doce,
Que traduz tanto amargor!
Saudade é como se fosse
Espinho cheirando a flor”.

Nisto assentaram de mandar mensagens de suas saudades às namoradas. Mensageiros, porém, a quem as confiassem, não os havia naquela solidão. Pensaram na índia. A índia! Não sabia o linguajar dos brancos e material para escrever recados, não o havia tão pouco. Cupido, entretanto, sabe inventar suas traças. Pegam da gentia e a exercitam, com afinco, em frase curta, mas expressiva:

“Estou numa serra: morro de saudades”.

Bem decorada a mensagem, que havia de reproduzir para cada namorada, apontam-lhe o perfil da Serra do Pitangui, seu destino, entregando-lhe, cada um uma prenda bem conhecida de sua Dulcinéia e, explicando-lhe como devia proceder, despacham-na, devendo o mais correr por conta de sua sagacidade. O instinto agudo do bugre para se nortear é atributo que não se lhe nega. Jornadeando de preferência à noite para evitar encontros importunos, não lhe foi difícil acertar com seu destino e bater à primeira porta que lhe indicaram. Pelo caminho, entretanto, havia ficado esquecida boa parte da mensagem, retidas, apenas, duas palavras: Serra – Saudades. As prendas e a mímica tudo supriram. A primeira Dulcinéia convoca as outras e, reunidas, interrogam e bem interpretam os gestos da índia inteligente.

Recambiam-na, já agora acompanhada de mensageiro branco, com mensagem de retorno para a Serra das Saudades. E mensagens voam contínuo de Pitangui para a Serra, redobrando as saudades. Pobre índia! Sua dedicação, fazendo da sua Serra a torre das saudades do amante, ia desfazer-lhe os sonhos e encher-lhe o peito de saudades também. Disto dizem que a Serra tirou seu nome.
­­­­­­­­­­­­­­­­­ ___________

Esta é uma das ramificações da Canastra, que mais tarde daria nome à Vila de Nossa Senhora da Serra da Saudade do Indaiá, atualmente abreviado para Dores do Indaiá, cuja vista parcial aqui se vê. Esta é a região que já havia sido palmilhada por bandeirantes desde 1596 (por Domingos Rodrigues, Lourenço Castanho e outros), antes da arrancada de Fernão Dias Pais Leme que, deixando o antigo caminho geral do sertão do S. Francisco, infletindo à direita, procurou o país das esmeraldas. Esta é paragem percorrida por André de Lião e Tenório de Aguilar, antes que Bartolomeu Bueno de Siqueira, partindo de S. Ana do Paraopeba, chegasse às margens do rio das crianças (região do Pitangui). Esta é a zona que, por ter tido o bom gosto de não revelar desde logo, aos forasteiros reinóis, sua riqueza diamantina e uberdade de seu solo, e por isso cheia de índios, infestada de quilombos e de fugitivos aos rigores do erário régio, ficou abandonada e esquecida, servindo apenas de caminho para Goiás e Paracatu, até que a pecuária e a suinocultura vieram substituir as lavras auríferas esgotadas. Este é o país do futuro tipo brasileiro.




Um comentário:

  1. ESTOU LENDO O LIVRO "SERRA DA SAUDADE" OTIMA LEITURA E BOA FONTE DE PESQUISA,APESAR DE SER MEIO DIFICIL ENTENDER AS PALVRAS DE EPOCA,JA QUE O LIVRO É DE 1948.
    FALA BASTANTE NA MINHA REGIAO DO CAMPO GRANDE, E QUARTEL DOS FERREIROS, QUILOMBO DO AMBROSIO E BARRA DO FUNCHAL.

    ResponderExcluir