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quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Maria de Oliveira Corrêa (1913-1950)


MARIA DE OLIVEIRA CORRÊA
(*13-10-1913   +12-08-1950)


Há 65 anos, minha mãe, Maria de Oliveira Corrêa, nos deixou. Às 10,30 horas do dia 12 de agosto de 1950 ela deu seu último suspiro nos braços de sua irmã Dirce de Oliveira, na cidade de Luz, Minas Gerais. Deixou desconsolado meu pai Dilermando Corrêa de Souza e ainda mais seus dois filhos: eu, então com 6 anos, e meu irmão Dilermando Corrêa Filho, que não tinha ainda completado 3 anos. Agora, passado todo este tempo, posso, seguramente, afirmar que a saudade que ela deixou não arrefeceu um milímetro sequer.


Maria, por volta de 1943.

Foi uma mulher de fibra e lutadora. Filha dedicada, irmã cuidadosa e atenciosa, estudante aplicada e ótima aluna, esposa amorosa e, acima de tudo, uma mãe carinhosa que só não foi melhor por que sua saúde frágil não permitia. Deixou saudades por onde andou e uma sensação de vazio em todos aqueles com quem conviveu. Foi uma pessoa do bem, em tudo que isso significa.


João Joaquim da Cunha (1815-1890).
Genearca de grandes famílias de Dores do Indaiá
(Oliveira, Cunha, Corrêa, Teles, Agnelo e outras).
Bisavô de Maria. Ca. 1880.

Luiz Corrêa de Souza e Maria Teodora de Mendonça
(Mindola). Avós de Dilermando, esposo de Maria, e
seus tios-avós). Luiz era neto de Manuel Corrêa
de Souza, um dos sesmeiros fundadores de
Dores do Indaiá. À direita, o garoto Sebastião
Corrêa de Souza, pai de Dilermando.
Ca. 1885.

Pedro José de Oliveira e Silva, avô de Maria.
Um dos homens mais probos que já viveram
em Dores do Indaiá.


Anna Teodora de Mendonça (Dona),
avó de Maria. Única foto conhecida, já que
Dona não autorizava fotos. Esta foi
colhida, sem que ela percebesse, por
Waldemar de Oliveira. Ca. 1937. A
seu lado, com a criança, Ceci de Oliveira.


João Inácio de Oliveira, pai de Maria.

Amazília de Oliveira, mãe de Maria.

Filha de João Inácio de Oliveira e Amazília de Oliveira, neta de Pedro José de Oliveira e Silva e Anna Teodora de Mendonça (Dona), conviveu na casa de seus avós por boa parte de sua vida de solteira. Seus pais eram primos em segundo grau. Eram descendentes de Páschoa Maria de Jesus, irmã do Capitão Amaro da Costa Guimarães, um dos sesmeiros fundadores de Dores do Indaiá, em 1798. Ambos eram filhos de Jerônimo da Costa Guimarães, natural de Souto, concelho de Guimarães, norte de Portugal. Páschoa teve uma filha, Custódia Luiza de Sant'Anna que, com seu marido, Domingos Gonçalves Machado, se mudaram de Queluz (atual Conselheiro Lafaiete) e adquiriram uma fazenda próxima à Serra da Saudade, provavelmente desmembramento da primeira sesmaria de um dos irmãos do Capitão Amaro, chamada Fazenda Cachoeira, em fins do século XVIII. A Fazenda Cachoeira foi o núcleo germinal de toda a família Oliveira de Dores do Indaiá. Um genro de Custódia Luiza de Sant'Anna, Manuel Alves Cirino, também foi um dos fundadores de Dores do Indaiá, como o atestam diversos historiadores, como os profs. Waldemar de Almeida Barbosa e Rubens Fiúza e o grande pesquisador, dublê de advogado, Carlos Cunha Corrêa.

      Maria nasceu na Fazenda das Condutas, em Dores do Indaiá, de seu avô Pedro José, a 13 de outubro de 1913. Esta Fazenda das Condutas era, por sua vez, um desmembramento de uma das sesmarias que deram origem a Dores do Indaiá, a Fazenda dos Patos, de propriedade de Manuel Corrêa de Souza, o Correinha, o homem que doou o terreno para a construção da Matriz de São Sebastião (atual Praça Alexandre Lacerda), núcleo inicial da cidade de Dores. Maria viveu na Fazenda das Condutas até quando o avô a vendeu para seu pai, João Inácio, em 1929, quando foi trazida por Pedro José para Dores do Indaiá para prosseguir os estudos ginasiais, já que o primário havia sido feito na fazenda, como de hábito naqueles tempos. Morava com sua prima em primeiro grau, Ceci de Oliveira, no mesmo quarto do casarão de Pedro José. Tornaram-se grandes amigas para sempre. 





A Escola Normal Francisco Campos e o Pensionato São José,
quando da construção do jardim defronte, no início da década
de 1930. Pedro José de Oliveira e Silva morava na
casa à direita do Pensionato, vizinho de muro.

Algum tempo depois da foto anterior, onde se vê parte da
casa de Pedro José, à direita.

Escola Normal e o Pensionato, à direita. Foto de 1934, colhida de uma das
janelas do casarão de Pedro José. Neste casarão foram suas hóspedes,
durante muitos anos, as irmãs Iracema, Jacira e Juracy Duffles Teixeira Lott,
professoras da Escola Normal e irmãs do Marechal Henrique Duffles Teixeira Lott.


       Maria exerceu um papel de auxiliar do avô na administração da casa, já que Pedro José ajudou a criar vários netos, que, em períodos diferentes, moraram em sua casa. Entre seus primos que ali viveram, e sobre os quais exercia uma liderança suave e afetuosa, estavam os futuros professores e irmãos José de Oliveira Carvalho e Mário de Oliveira Carvalho, figuras eméritas na cultura da cidade de Dores do Indaiá, Pedro de Oliveira, conhecido como Pedico, que, além de professor, foi respeitado farmacêutico na cidade, seu irmão Evandro de Oliveira, Licinha e Clara de Oliveira, filhas de Simeão de Oliveira, sua irmã Dirce de Oliveira e muitos outros.




Sala de aula no Ginásio Dorense, em 1929.
Profa. Iracema Duffles Teixeira Lott.

Em um cartão postal enviado do Rio de Janeiro pela profa. Jacyra
Duffles Teixeira Lott para Pedro José de Oliveira e Silva,
revelando o grau de amizade entre as famílias. 



Maria de Oliveira. Ca. 1936.

No Ginásio Dorense foi aluna, dentre outros grandes mestres, de D. Iracema Duffles Teixeira Lott, do Rio de Janeiro, irmã do Marechal Henrique Duffles Teixeira Lott, grande figura de nossa história republicana. Em 1932 estava na Escola Normal, onde foi aluna de grandes figuras da cultura, das letras e da educação de Dores do Indaiá, então uma cidade que se destacava em toda a região do Alto São Francisco e Oeste de Minas. Graduou-se, em 1937, como normalista. Naquele mesmo ano, em 18 de dezembro, casou-se com meu pai, seu primo em terceiro grau (as avós de ambos eram irmãs, filhas do lendário João Joaquim da Cunha, genearca de inúmeras famílias tradicionais de Dores do Indaiá, como os Oliveira, Cunha, Teles, Ribeiro, Agnelo, Corrêa e outras).


Maria de Oliveira. 1937.

Formatura de Maria na Escola Normal Francisco Campos, em dezembro de 1937.

Missa na Matriz de N.S. das Dores. Na segunda linha, Maria e seu noivo 

Dilermando Corrêa de Souza. 

Na foto, se encontram diversos professores: Waldemar de Almeida Barbosa, 

Esther Alves, Dr. Di, Ramiro Botinha e outros. Mais ao fundo, Walter Ude, 
grande construtor em Dores, que participou da construção da Escola Normal.


A mesma foto anterior com os nomes de diversos personagens retratados.




Monografia de Maria de Oliveira, apresentada quando
da conclusão do II Ano de Aplicação, em 1937.

Tema da Monografia: estudo sobre o Método
        Global de ensino, de Orville Decroly, grande
        pedagogo belga, até hoje empregado em
      diversas partes do mundo.


Nota final da Monografia: 8,8. Assinado pelos professores:
primeira assinatura ilegível, Edgard Pinto Fiúza, Esther Alves,
Iracema Duffles Teixeira, e Zilá França Fiúza.

     Maria casou-se duas semanas após sua formatura, em 18 de dezembro de 1937, com seu primo em terceiro grau, Dilermando Corrêa de Souza. As avós de ambos eram irmãs (Anna Teodora de Mendonça - Dona e Maria Teodora de Mendonça - Mindola), filhas de João Joaquim da Cunha. Dilermando trabalhava em Barretos, São Paulo, ajudando seu irmão mais velho, José Corrêa de Souza nas lides com uma chácara produtora de frutas, próxima à cidade. Dilermando voltou a Dores por causa da prima, deixando para trás diversas pretendentes em Barretos. Era amor de longa data.




Dilermando Corrêa de Souza, em 1930.

Foto do casamento de Dilermando e Maria em 18 de dezembro de 1937.

    Após o casamento, Dilermando e Maria continuaram a residir em Dores do Indaiá. Em sociedade com seu irmão Omar Corrêa de Souza e seu cunhado, irmão de Maria, Mario de Oliveira, montaram um bar-sorveteria chamado Sorveteria Polar, na praça da Escola Normal, esquina de Rua Goiás, bem defronte à casa de seu sogro e tio-avô Pedro José. A sociedade durou uns dois anos. Posteriormente, foi vendida e se transformou no Bar do Zebuzeiro, local de grandes acontecimentos na história de Dores do Indaiá, em finais dos anos 30 e início dos 40. Grandes negócios de gado zebu eram realizados no local e, com frequência, após grandes feitos, os negócios eram comemorados com foguetes e espoucar de garrafas de champagne importadas. Tudo bem ao estilo de "Paris é Uma Festa", o grande romance de Ernest Hemingway. Em 1941, houve a crise do gado Zebu, numa medida impopular do governo de Getúlio Vargas (Estado Novo), com a quebradeira geral dos produtores de gado zebu.



Maria, sua mãe, irmãos e primos, no lote defronte a sua casa (que se vê
ao fundo) na Rua Dr. Zacarias, em Dores do Indaiá. Ca. 1938.


Maria, seus irmãos (da esquerda para a direita, Paulo, Pedro
e Xisto). Ao centro, sua cunhada, Maria da Conceição Corrêa.
Ca. 1938.


Maria, sua cunhada Maria da Conceição
Corrêa e filhas de primas. Ca. 1938.



No Jardim dos Oliveiras: uma família sempre unida. Da esquerda para a direita os irmãos: Pedro, Paulo, Xisto, Mário, Geralda (cunhada de Amazília), Amazília, Maria, Conceição Corrêa, mocinhas e crianças não identificadas.


Dores do Indaiá na década de 1940. Foto Philadelpho.
Fonte: Carlos Cunha Corrêa, "Serra da Saudade", 1948.


Maria morou em Dores até 1942, em casa defronte à residência de seus pais, na Rua Dr. Zacarias, quando nasceu seu primeiro filho. Este viveu menos de 24 horas e ela foi acometida de grave flebite que a obrigou a repouso absoluto no leito por mais de seis meses. A doença quase lhe foi fatal numa época em que não havia antibióticos. A partir daí, desenvolveu complicações cardiovasculares que minaram sua resistência em apenas 8 anos. Após se recuperar, mudou-se com meu pai para Barretos, São Paulo, pois este já havia trabalhado ali com seu irmão mais velho, José Corrêa de Souza, administrando sua chácara nas proximidades da cidade. Voltou para as mesmas atividades anteriores, acrescidas da tarefa de cuidar dos três filhos de José, que havia falecido de tifo alguns anos antes.



Foto: Dmitri Kessel, Revista Life, setembro de 1947.


São Paulo, no início da década de 1940.
Foto de autor desconhecido.

Quando vim ao mundo em abril de 1944, os médicos em Barretos recomendaram a meu pai que a levasse para a Capital, onde havia mais recursos médicos. Assim foi feito e nasci na sala de parto da Maternidade São Paulo, à Rua Frei Caneca, com Rua Antônio Carlos, em pleno Bairro da Bela Vista (Bexiga), no centro da Capital. Esta maternidade até ha poucos anos continuava funcionando, participando da Universidade de São Paulo (USP). Felizmente, o parto correu bem e meus pais voltaram para Barretos. Ali ficaram até meados de 1947, quando retornaram para Minas, já que meu pai foi trabalhar com seu irmão Olinto Ribeiro Corrêa no beneficiamento de café na cidade de Campos Altos. Minha mãe já estava grávida do outro filho, que nasceu em Luz, em setembro de 1947, sob os cuidados do competente Dr. Tácito Guimarães. Em Campos Altos residiram por quase dois anos, quando decidiram se mudar para Luz, onde dois irmãos de meu pai residiam, Olinto e Francisco (Chiquinho). Lá montou um comércio, o Bazar Santo Antônio, desenvolvendo grande freguesia e respeito no antigo arraial do Aterrado.



Maria de Oliveira Corrêa e seu filho Antônio Carlos
           Corrêa. Novembro de 1944. Esta foto, apagada a minha
            figura, encontra-se em seu túmulo em Dores do Indaiá.
Uma união real e simbólica para sempre.




Sequência de fotos no jardim da casa
de Dilermando e Maria em Barretos.
Visita de Dirce de Oliveira (irmã de Maria)
e Maria da Conceição Corrêa (irmã de Dilermando).
A casa ainda está preservada, à Rua 12, centro.
Abril de 1945.


Maria e funcionários da chácara. A 3a. a partir da esquerda,
era Galdina, sua funcionária natural de Dores do Indaiá (de
família do Bairro Cerrado) que a acompanhou até o fim.
Ca. 1945.

Maria e Dilermando ao lado de amigos e funcionários
da chácara. Ca. 1945.

Dilermando, Maria e funcionários da chácara. A segunda,
a partir da direita, era Eunice Prudente, a maior amiga
de Maria em Barretos e sua hóspede. Ca. 1945.

Dilermando, Maria e Antônio Carlos. Ca. 1945.


Maria e suas duas sementinhas.
Após o regresso para Minas. Foto colhida
em Dores do Indaiá, 1949.

Maria e suas duas sementinhas.
Ao lado do barracão dos sogros,
Sebastião Corrêa e Virgínia Fiúza,
à Rua São Paulo, 300, Dores do Indaiá.
1949.


Em 12 de agosto de 1950, não suportando mais o sofrimento, não havendo mais recursos da medicina daquele tempo para seu caso, em meio à dispneia profunda, cansaço, edema e dores generalizadas, provocados pela insuficiência cardíaca, Maria foi convocada para ficar junto de seus avós queridos, que haviam partido há mais de 12 anos. Foi velada na casa de seus pais em Dores e sepultada no túmulo de Pedro José e Anna, a poucos metros do túmulo do Dr. Zacarias. Presenciei todo o cerimonial, inclusive uma cena pesada para um garoto de 6 anos, quando, como era de hábito, abriam o caixão junto à sepultura, e jogavam cal sobre o corpo. O barulho seco do impacto marcou minha vida e nunca me esqueci deste momento de indescritível dor e sensação de impotência. Quem me conduziu até o cemitério, o fez na melhor das intenções, acreditando que seria bom para mim se eu acompanhasse minha mãe até sua última morada. Foi a melhor amiga de minha mãe, de Barretos, que viera para o cerimonial. Nunca tive qualquer sentimento de mágoa por isso, tanto é que, muitos anos depois, ela tornou-se minha madrinha de casamento. Então era casada com o prefeito da cidade de Barretos. Ficou um grande desconsolo e uma inarredável sensação de vazio. Acredito que este episódio tenha fortalecido em mim as qualidades para me dedicar à medicina, o que era seu sonho. Só não cumpri um desejo seu: descobrir a cura para o câncer. Fiquei devendo esta.



Ultimas fotos de Maria. Na Usina de Luz. Junho de 1950.
Em seu colo, Dilermandinho.


Últimas fotos de Maria. Na Usina de Luz, junho de 1950.
Sentados na carroceria do caminhão, logo atrás, Antônio Carlos
e Dilermandinho.


Maria se foi com apenas 37 anos, mas deixou duas sementinhas, como ela bem gostava de comentar com os parentes e amigos, que se contavam às dezenas. Sementinhas estas bem plantadas por ela e que renderam frutos, muitos frutos. Agora, num preito de gratidão, pela mãe que ela foi, pelo grande ser humano que ela era, resta-me lembrar de sua imagem que permanece em minha memória com detalhes marcantes, agradece-la e reverencia-la aqui, divulgando sua vida e obra. Tenho certeza que está ao lado de seu esposo, de seus pais e de seus amados avós, Pedro José e Dona, em algum lugar do firmamento, esperando o momento em que suas sementinhas irão encontrar consigo. Até lá!



3 comentários:

  1. Gostei muito de ler esta história linda e comovente.Parabéns !

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    1. Muito obrigado, Vilma! Estímulos assim nos mantém na luta!

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  2. Parabéns Antônio Carlos. Meu pai, seu Tio Paulo emocionou ao ver sua tão querida irmã que tanto faz comentários desde a infancia.

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