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terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Linhagens genealógicas de famílias em Dores do Indaiá do século XVIII ao XX

Numa análise mais atenta das linhagens genealógicas de famílias de Dores do Indaiá do século XVIII ao século XX pode-se observar uma elevada frequência de casamentos consanguíneos. Todas essas linhagens tiveram início em cidadãos da cidade de Pitangui, descendentes de portugueses, que se adentraram pelo sertão do Campo Grande na medida em que obtinham sesmarias na região ou que estivessem em busca de riquezas minerais. 

Por volta de 1726 foi descoberta a presença de diamantes nos leitos dos rios Indaiá e Abaeté. A Coroa portuguesa manteve segredo dessa descoberta por algum tempo. Mas a notícia acabou se espalhando acarretando uma verdadeira invasão na região do alto Rio São Francisco por aventureiros, mineradores e faiscadores. Hordas de bandoleiros também passaram a infestar a região, situação que se agravou pela presença de quilombolas e de algumas tribos de índios caiapós remanescentes da grande nação tapuia. 

No período, o ouro de aluvião dos principais centros produtores da Capitania de Minas Gerais entrava em curva descendente. Em meados do século XVIII começou a escassear ainda mais, o que acarretou a demanda por parte dos mineradores de novas áreas de exploração. Os diamantes encontrados na região do alto Rio São Francisco compõem um complexo sítio diamantífero que se estende do Alto Paranaíba, passando pela região sul de Paracatu até chegar ao Serro. Atualmente ainda existem minerações subterrâneas, em alguns pontos, tocadas por grandes empresas multinacionais e que exigem maquinário de tecnologia avançada e complexa. 

Para facilitar o transporte de tropas para os centros mineradores de Paracatu e de Goiás, o transporte de mercadorias e a cobrança de impostos, a Coroa contratou empresários para construir estradas, muito limitadas, diga-se de passagem, com esse intuito. Em 1736/7 foi construída a Picada de Goiás, ligando São João del Rei a Paracatu, passando pelo atual Triângulo Mineiro, próximo a Patrocínio, numa continuidade da Estrada Real que seguia até o Rio de Janeiro. Para encurtar distâncias, foi construída uma variante da Picada de Goiás ligando a cidade de Pitangui a Paracatu, no mesmo período. Ficou conhecida como a variante do Piraquara, por atravessar o Rio São Francisco num ponto conhecido como Piraquara. Esta palavra vem do tupi-guarani que significa a cova do peixe ou comedor de peixe. É um ponto em que as margens do rio são mais estreitas e facilitam o transporte por balsas. No período da seca, grandes pedras afloram à superfície facilitando ainda  mais a transposição do rio. Domingos de Brito foi seu principal construtor. Em geral, esses empreendedores eram pagos com grandes extensões de terras, as sesmarias, localizadas no trajetos das picadas. Entretanto, Brito não ficou ali por muito tempo, em função da violência dos índios e dos quilombolas. Por certo tempo, as terras foram consideradas devolutas. Em 1765, próximo ao Piraquara, quatro irmãos, vindos de Queluz (atual Conselheiro Lafaiete) se estabeleceram em terras a oeste do Rio São Francisco até as fraldas da Serra da Saudade, uma ramificação da Serra da Canastra. Eram eles: Amaro, Joaquim, João e José da Costa Guimarães. Seu pai era um português, natural da freguesia de São Torcato, termo da vila de Guimarães, arcebispado de Braga, norte de Portugal. Ele se casara, em 1733, com Damiana de Jesus, na Matriz de Queluz. Ela era natural da Freguesia de São Miguel de Urrós, vale do Arouca, bispado de Lamego, Portugal. Após 20 anos estabelecidos nas terras, criando gado, cavalos, porcos e aves, plantando para subsistência, solicitaram ao governador da Capitania, Luis da Cunha Menezes, Conde de Lumiares, a posse de suas terras. Foi-lhes concedidas, então, as suas respectivas sesmarias. Estes foram os quatro primeiros habitantes da região, oficialmente reconhecidos.

Outros sesmeiros foram se estabelecendo paulatinamente na região. Dentre eles, Manoel Corrêa de Souza, um descendente da família de bandeirantes paulistas Arzão, proveniente de Carrancas, sul de Minas Gerais. Em 1788, Manoel obteve sua sesmaria, a oeste das terras de Amaro da Costa Guimarães. Em 1790 já estava estabelecido em suas terras que, doravante, batizou de Fazenda dos Patos. 

Os sesmeiros viviam isolados em suas fazendas. Toda sua alimentação, seu vestuário e todo material que necessitassem para suas vidas era produzido na própria fazenda. No período das chuvas ficavam ilhados até por mais de quatro meses. A carência de vida cultural, social, religiosa, escolas, assistência médica e odontológica, comércio um pouco mais variado, fez com que eles começassem a se reunir periodicamente, cada vez em uma fazenda diferente. O principal objetivo era a fundação de um povoado onde suas necessidades básicas pudessem ser supridas. Por volta de 1798 foi fundado o Arraial da Boa Vista, às margens da Picada de Goiás, muito próximo a um povoado já existente composto por moradores do antigo Arraial dos Porcos, em sua maioria antigos escravos. O novo arraial foi construído em terras de Manoel Corrêa de Souza, que doou o terreno para esta finalidade. 

Gradativamente o arraial foi crescendo. Em 1803, a primeira autoridade judicial foi deslocada de Pitangui para lá. Pitangui era a sede administrativa, religiosa, judicial, cartorial e cultural de toda a região do Alto São Francisco, distante 104 quilômetros. Em 1806 foi dado início à construção da capela, depois Matriz, de São Sebastião, santo de devoção dos mineradores, no lugar da antiga capelinha colmada, de adobe e sapé, cujo orago era Nossa Senhora das Dores. Defronte a esta igreja pioneira, os fazendeiros foram construindo suas casas, de tijolos, telhas e janelas de vidro, um luxo para a região naquele tempo. A primeira casa, que ainda existe, e está bem conservada, foi construída em 1815, por um dos sesmeiros pioneiros, José de Sousa Coelho, o Juca de Sousa, de origem judaica, proveniente de Pitangui, genearca de numerosíssima e conceituada família.

De uma irmã de Amaro da Costa Guimarães, que se tornou oficialmente Capitão, por serviços prestados ao governador da Capitania, Páschoa Maria de Jesus, cuja filha e netos se estabeleceram na Fazenda Cachoeira, a leste da Serra da Saudade, teve origem a família dos Oliveira, dos Tonaco, Teles e outras, também de grande descendência.

Membros da família Pinto Coelho de Pitangui também foram se estabelecendo no arraial gerando grande descendência. Do Capitão Antônio Theodoro de Mendonça, filho de pai português, vindo de Aiuruoca, sul de Minas, para Pitangui, ele próprio dizimeiro da Coroa portuguesa, e proprietário de fazendas e vastas extensões de terras em toda a região, também surgiu grande descendência.

No total, foram 39 sesmeiros e fazendeiros que deram origem ao arraial da Boa Vista, posteriormente Dores do Indaiá. Em 1835, o arraial foi promovido a vila. Em 15 outubro de 1885, a vila recebeu o título de cidade, sede de seu próprio município, com sua Câmara Municipal, seu Agente Administrativo (atual prefeito), vereadores, e sua própria administração.

A elevada taxa de consanguinidade dessas famílias não é exclusividade de Dores do Indaiá, nem do Estado de Minas Gerais, muito menos do Brasil. Por toda a Capitania de Minas Gerais, nos séculos XVIII e, principalmente, no século XIX, é observado o mesmo fenômeno. Diversas explicações foram elaboradas por historiadores, sociólogos, etnólogos e antropólogos. Tanto entre os cristãos velhos como entre os cristãos novos (judeus convertidos, marranos, judaizantes), mesmo entre os que se mantiveram na fé judaica no exílio, essas práticas eram frequentes. Talvez a mais importante delas seja a necessidade de manter o patrimônio dentro das mesmas famílias por diversas razões. Preservar o que já se tem, aumentar ainda mais o patrimônio com a incorporação do novos bens adquiridos por herdeiros, a busca pelo poder, pelo status social e financeiro, são motores psicológicos e sociais importantes. Mas, acima de tudo, particularmente entre os cristãos novos, a perpetuação da cultura, da tradição, dos princípios morais e religiosos, as mesmas orientações profissionais, dos hábitos de vida social e privada, como o vestir e se alimentar, a educação dos filhos, o mesmo linguajar, podem ter um peso importantíssimo. Esta é a força da tradição, com todas as consequências biológicas e psicológicas que esse fenômeno pode trazer. Fenômeno que continua a ocorrer até nos dias atuais, mais de três séculos depois de finda a Inquisição. 












FONTES: 
1- Carlos Cunha Corrêa. Serra da Saudade. Belo Horizonte. Imprensa Oficial, 
    1948.
2- Waldemar de Almeida Barbosa. Dores do Indaiá do Passado. Edição do 
    autor, 1964.
3- Rubens Fiúza. Do São Francisco ao Indaiá, Editora do Autor, 2003.
4- Fenelon Ribeiro. Povoamento e Colonização – Centro Oeste Além São           
    Francisco – Dores do Indaiá. Belo Horizonte. Gráfica e Editora O Lutador, 
    2005.
5- Ribeiro, José Américo; Carvalho Brandão, Eduardo; Garcia Brandão, 
    Olímpio. Caminhos do Cerrado. A trajetória da família Pereira Brandão. 
    Belo Horizonte. Saitec Ed., 2005.
6- Augusto de Lima Júnior. A Capitania das Minas Gerais. Belo Horizonte. 
    Editora Itatiaia; Ed. da Universidade de São Paulo, 1978.
7- Pesquisa genealógica do Sr. Jean-Pierre Longueteau.
8- Pesquisa genealógica do Sr. Iácones Batista Vargas.
9- Pesquisa genealógica do Sr. José Hipólito de Moura Faria.
10- Adaptado e modificado da montagem feita por Roberto Fiúza de Lacerda.

Um comentário:

  1. Bom dia Antônio, meu nome é Giordano Lacerda Batista e estou em uma pesquisa genealógica de minha família, minha família também é de Dores do Indaiá, e gostaria de saber se você tem alguma pista para mim, já que não tenho contato com ninguém mais de minha família.

    Tenho o nome do meu avô e bisavô. Avô; José Batista Sobrinho
    Bisavô: Joaquim Batista de Faria nasceu 26/05/1913. Natural​ de Dores do Indaiá. Brasileiro. Casado com Maria José da Silva. Filho de João Batista de Jesus. E Constância Maria

    Espero que possa me ajudar, obrigado desde já.

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